segunda-feira, maio 14, 2007

O Torcedor Alcoolizado

É o ponto de partida do texto a notícia do site do Sindicato de Médicos do Rio Grande do Sul (SIMERS) sobre o Projeto de Lei do deputado Miki Breier (PSB) que propõe proibir venda e consumo de bebidas alcoólicas nos estádios de futebol para reduzir a violência nos jogos. A notícia segue em anexo.
Essa notícia faz parte do debate sobre a venda de bebidas alcoólicas nos estádios e nas suas imediações em dias de partidas. Com o aumento de violência nos estádios, diversas autoridades e diversos membros da sociedade civil passaram a advogar pelo fim da comercialização de bebidas alcoólicas como uma forma de combater a escalada de crimes e confrontos entre torcedores e policiais. Alegam que a bebida é o fator que transforma o simples torcedor em um individuo perigoso, que se envolve em brigas e perpetra atos de vandalismo que, se sóbrio, nunca cometeria. O discurso no Rio Grande do Sul não é novo, mas só agora está tomando sua forma legal. Em outros estados, como São Paulo e Minas Gerais, as bebidas já foram totalmente proibidas ou severamente restringidas.
Nesse tema, vislumbrei uma clara essencialização, a formação de um estereótipo. O alvo é o "torcedor alcoolizado", apontado como a causa geradora da violência. Dessa forma, do empresário ao funcionário, do estudante ao professor, do magistrado ao rapaz com antecedentes, todos eles - enquanto torcedores - estando alcoolizados, são encarados da mesma forma, são essencializados como "o torcedor alcoolizado".
Os favoráveis a proibição explicam que a violência é gerada principalmente pela alteração no estado anímico dos torcedores causada pelas bebidas alcoólicas. Sem essa causa, estar-se-ia eliminando a conduta indesejada, ou seja, estar-se-ia eliminando - ou ao menos diminuindo drasticamente, como que num passe de mágica - a violência nos estádios de futebol.
Esse discurso ignora uma miríade de fatores que também geram violência e são muito mais importantes e determinantes. De início, sem muita investigação, podemos constatar atualmente a falta de aplicação das mais simples leis penais, a falta de preparo das autoridades, as péssimas condições que se encontram os estádios (o que dificulta a ação de policiais, como a revista inicial e a pronta intervenção), a falta de educação e responsabilidade dos torcedores, entre outros. Todos esses fatores geram muito mais violência que as bebidas alcoólicas e, principalmente, são passíveis de combate. Na essencialização do torcedor, no entanto, esses fatores são eliminados ou minorados.
A essencialização da bebida alcoólica nos estádios não resiste a uma mínima análise empírica. A proibição nos estádios de São Paulo não resolveu o problema da violência nos estádios. Torcedores ainda se confrontam, torcedores continuam morrendo, os problemas de violência ainda persistem e as torcidas organizadas são atualmente quadrilhas armadas. O pouco de violência que foi diminuído se deve mais a outras medidas, como aumento de policiamento e diminuição da capacidade dos estádios, do que propriamente a proibição de bebida alcoólicas.
Naturalmente, as bebidas alcoólicas são, sim, parte do problema, e são sim fatores geradores de violência, mas no cômputo geral são um fator pequeno, pertos dos demais. Transpondo para números, o álcool seria 5% do problema, enquanto problemas estruturais dos antigos estádios brasileiros seriam 30%, a falta de educação e responsabilidade das pessoas 30%, a falta de políticas públicas de segurança mais 30% e os 5% restantes para fatores diversos. A proporção de importancia dos problemas pode variar, e pode muito diferir da exposta, mas a importância do álcool como fator gerador de violência perto de outros fatores continua a mesma.
Com esse texto não digo que sou contra - nem a favor - da proibição do comércio de bebidas alcoólicas no estádio. Meu argumento é que se alguém deseja combater a violência nos estádios de futebol, ela deve empregar seus esforços proporcionalmente em todos os fatores e então, esgotadas as possibilidades, voltar-se aos fatores menores. Caso contrário, estará respaldado como promotor da paz nos estádios aquele político ou membro da sociedade que lutar e conseguir proibir a venda de bebidas alcoólicas, quando, na verdade, ele atacou o menor dos fatores e não fez virtualmente nada pela sociedade, a não ser privá-la de um Direito.