domingo, outubro 30, 2005

Hitler e a Economia do Entre-guerras

Em 30 de janeiro de 1933, Hitler foi apontado como Chanceler da Alemanha pelo Presidente Hindenburg. No poder, Adolf Hitler finalmente poderia por em prática seus planos para a Alemanha, embora não se saiba exatamente quais eram os verdadeiros planos do então Chanceler.

No espectro político, deu-se aumento da repressão política e, após a morte de Hindenburg, o sepultamento da democracia de Weimar. Portanto, em 1934, Hitler era o líder supremo e inconteste da Alemanha, tendo sobre o seu controle todo o Estado, desde a segurança até a economia.

É no plano economico, no entanto, onde se dão as maiores controvérsias sobre as medidas de Hitler. Por muitos anos, diversos historiadores sustentaram que Hitler havia reerguido a econômia alemã, tirado-a da depressão, suprimido o desemprego, controlado a inflação e criado as bases para o rápido rearmamento alemão.

No entanto, nada disso aconteceu na sua plenitude. Hitler ascendeu ao poder sem um plano definido - ou se o tinha, não o seguiu - e suas atitudes foram sendo tomadas de acordo com a situação momentânea. O único princípio - e único mesmo - que ele manteve, desde o primeiro dia como Chanceler até seu derradeiro fim, foi manter-se no poder, não importando as conseqüências dessa condição.

Em um de seus primeiros discursos, por exemplo, Hitler pediu ao povo alemão quatro anos para reformar o país e alça-lo á sua antiga posição. Tais promessas se davam em um periodo muito conturbado, não só na Alemanha mas em todo o mundo. Os reflexos da crise de 1929 ainda se faziam presentes e as perspectivas econômicas para o futuro não eram animadoras. Para tal, era necessário mudar e logo.

Devido a crise e á pressa com que as mudanças econômicas foram adotadas, a econômia alemã desenvolveu-se intencionalmente. Seu objetivo básico em 1933-32 era erradicar o desemprego. Para tal, os nazistas estabeleceram políticas de crédito facilitado, altíssimos gastos públicos, frentes de trabalho, erradicação do mercado de trabalho de judeus, imigrantes, eslavos e inimigos políticos do regime, incentivo ao casamento para tirar mulheres do mercado de trabalho e maquiagem de estatísticas. Foi dessa maneira que o já declinante desemprego de 5,6 millhões de pessoas de 33 despencou para 2,5 milhões em 1936 e virtualmente deixou de existir em 1939.

Até então liberal, a econômia, no plano interno, passou a sofrer uma forte intervenção do Estado, e em certos aspectos se assemelhando ou sendo igual ás mudanças ocorridas na Rússia a partir de 1917. Um exemplo foi a gradual extinção da econômia de mercado, sendo substituida pelo gerenciamento completo do Estado em todas esferas econômicas. Conselhos, autarquias, escritórios centrais e tantas outras ferramentas passaram a controlar tudo que era produzido e consumido no país.

Embora a propriedade privada não tenha sido nacionalizada, a iniciativa passou a ser toda do Estado. Muitas empresas sofreram taxações absurdas e outras foram simplesmente confiscadas. A crescente interferência do govêrno na economia nacional levou ao um ponto em que no ano de 1937, 80% de todos os edifícios construídos na Alemanha e 50% de toda a indústria tinha participação do governo.

A agricultura não tivera destino diferente. A política de centralizar a produção de alimentos e cortar importações para evitar perda de reservas resultou em aumento de preços. A inflação acumulada até 1935 apontava a subida de preço do trigo (15%), ovos(50%), manteiga(40%), batatas(75%), carnes em geral(50%). No mesmo periodo, o salário do trabalhador alemão permanecia na mesma linha de 1932, ou seja, 18 Reichsmarks, que seria um salário abaixo da linha de pobreza.

No mesmo periodo, já estava em andamento o rearmamento alemão, que estava exigindo uma assombrosa quantidade de matéria-prima, das quais a Alemanha não tinha condições de suprir. Para tal, era necessário importar, o que causava uma drenagem de divisas insustentável.

Antes de Hitler assumir, já haviam planos para a expansão das Forças Armadas, mas eles eram mais sóbrios e organizados. Em 1933, a Alemanha tinha um exército de aproximadamente 100 mil homens, que seria ampliado de 7 divisões para 21. No entanto, já em fevereiro de 1933, Hitler havia dito a von Fritsch para "criar um exército da maior força possível", o que significava carta branca para a ampliação desenfreada. Em 1935, foi anunciado o recrutamento compulsório e a força militar havia passado para 36 divisões, e posteriormente para 71 em 1938. Á época da invasão da Polônia, haviam 103 divisões na Wehrmacht, ou seja, um crescimento de 32 divisões em um ano, apenas.

A expansão das demais armas também foi rápida - e também mais custosa. A produção de aviões, desprezível em 1932, passou para pouco mais de 5.000 aeronaves em 1936. Na Marinha, embora os números não fossem tão impressionantes quanto às demais armas - em parte porque Marinhas de Guerra não surgiam só com pesados investimentos em curtos espaços de tempo - a Kriegsmarine contava com um efetivo cinco vezes maior do que em 1933 e gastando doze vezes mais que no mesmo ano.

A ânsia rearmamentista de Hitler, no entanto, estava exaurindo as reservas alemãs. Em 1938, nada menos que 52% das despesas governamentais e 17% do PNB eram destinados ao rearmamento alemão. Esses gastos eram maiores que os orçamentos da Grã-Bretanha, França e Estados Unidos juntas. As reservas do Reichsbank, em janeiro de 1933, totalizavam 937 milhões de Reichsmarks. Quatro anos depois, em 1937, haviam somente 72 milhões de Reichsmarks.

Analisando-se tantos indicadores negativos, questiona-se como o regime nazista se sustentaria dessa maneira. A resposta é clara: não se sustentaria nem a médio prazo. Ciente de sua situação, Hitler tinha dois caminhos bem claros a seguir: ir á guerra em busca do que lhe faltava e adiar a solução do problema, que era falta de reservas, mercados, produtos e matérias-primas - ou seja, quase tudo - ou frear os gastos governamentais, cortar despesas, desfazer a burocracia estatal e aguentar a crise que inexoravelmente viria, basicamente na forma de forte desemprego. A segunda opção implicava, quese que com certeza, a queda de Hitler - e ele sabia disso, ciente dos fracassos de seus antecessores, notadamente Muller, Brüning e Papen.

Hoje, portanto, sabe-se o caminho adotado por Hitler, embora suas intenções já estivessem claras no Mein Kampf. A adoção da guerra e da econômia de guerra foi, portanto, o caminho encontrado para se manter no poder a alcançar seus objetivos. Embora a Alemanha tenha sido a última nação a declarar o estado de Econômia de Guerra, suas ações já vinham perto desse padrão desde meados de 1935, quando, a despeito de inúmeros protestos de Goerdeler (posteriormente demitido) e Schacht (renunciante do cargo de presidente do Reichsbank), Hitler decidira manter as importações tanto de matéria-prima quanto de alimentos.

O comportamento deficitário de Hitler havia consumido todas as reservas de moeda estrangeira da Alemanha, e isso explica em parte sua avidez em invadir países vizinhos. A alegação mais conhecida do Anschluss(anexação) era a teoria do Lebesraum(Espaço Vital), preconizada por geopolíticos como Haushofer e Ratzel muitos anos antes de Hitler subir ao poder. Ao Lebesraum estão ligados fatores como novas áreas de produção agrícola, espaço para a população, busca de novos mercados, etc. e parte desses fatores motivaram as invasões alemãs que antecederam o início da Segunda Guerra.

No entanto, a principal motivação alemã era um pouco mais simples e prosaica. Precisava-se, mesmo, era de dinheiro para obter matérias-primas para a indústria bélica e armamento. Os planos do Espaço Vital, propriamente, só poderiam ser postos em prática após a eliminação ou neutralização dos inimigos da Alemanha, segundo Hitler.

A Áustria foi a primeira vítima da expansão nazista. Os alemães dela obtiveram diversas divisões militares que foram incorporadas á Landwehr, 100 toneladas de ouro retiradas do Banco Central Austríaco, bem como toda a moeda corrente do Estado austríaco depositada, que - no valor de $1,5 bilhões de schillings - foi convertida em Reichsmarks.

Após a pilhagem da Áustria, os nazistas se voltaram para a Tchecoeslováquia. Até ser dominada por Hilter, esse país detinha uma eficiente e invejável indústria bélica, que, em 1935, era a maior produtora e exportadora de armas para o mundo. As reservas de ouro da Tchecoeslováquia eram de aproximadamente 94 toneladas, mas esse montante fora gradualmente transferido para bancos no exterior devido a ameaça nazista. Mesmo assim, o Tratado de Munique garantia um repasse de 14,5 toneladas de ouro tcheco para a Alemanha como forma de compensar a circulação da moeda alemã nos recém anexados sudetos. Outras 23 toneladas de ouro ainda seria pilhadas pela Alemanha em 1939, com a transferência desse montante de contas no exterior para Berlim, passando por Londres, debaixo do nariz de seu complacente governo.

No campo militar, destacavam-se as fábricas da Skoda, que produziam os tanques LT vz 35(mais tarde Panzer 35(t)) e o TNH P-S(mais tarde Panzer 38(t)). A qualidade desses dois tanques rivalizava com os alemães, e em relação ao último, que em 1938 recém iniciava sua produção, era superior em todos os aspectos ao então principal tanque alemão, o Panzer II.

O Panzer 35(t) foi largamente usado na invasão da Polônia, e sem esses efetivos essa invesão teria ocorrido com muito mais dificuldade. Já o Panzer 38(t) seria importante parte da força blindada alemã que, em maio de 1940, cruzaria as Ardenas e contornaria os exércitos aliados. O Panzer 38(t) foi o principal tanque da 7º e 8º Divisão Panzer, sendo a primeira comandada pelo célebre general Erwin Rommel, que sem os excelentes equipamentos que tinha dificilmente teria alcançado resultados tão satisfatórios. As indústrias tchecas ainda supririam a Alemanha até o fim da guerra, produzindo cerca de 1400 Panzer 38(t), outros tantos carros de combate, bem como imprescindiveis toneladas de munição que iriam suprir as armas alemãs.

Situações semelhantes ainda se repetiriam na Polônia, Dinamarca, Noruega, Holanda, Bélgica, França, Ioguslávia, em menor ou maior grau, variando também a maneira de pilhagem. A diferença entre esses casos é que eles foram invadidos pelos Alemães na base da força, já em estado de guerra. No caso da Áustria e Tchecoeslováquia, essas invasões não perturbaram nem um pouco os aliados. Pelo contrário, contou com a ajuda e mediação dos ingleses e franceses. O caso mais notótio é o tratado de Munique, que entregou as regiões fronteiriças da Tchecoeslováquia para a Alemanha, tornando-a militarmente vulnerável, já que a região dos Sudetos era uma defesa estratégia dos tchecos devido ao seu relevo.

Portanto, as consequências das políticas econômicas de Hitler o precipitou iniciar uma guerra onde ele deveria conquistar praticamente toda a Europa para satisfazer as necessidades de uma população de 80 milhões de habitantes. O grande erro dos aliados foi não perceber e não dar ouvidos a quem percebeu.

Alexandre, o Grande, já havia dito séculos atrás "Povos foram escravos por que não aprenderam a pronunciar a palavra Não". Essa máxima nunca foi tão adequada para os conturbados anos 30.



Referências:
KENNEDY, Paul. Ascenção e Queda das Grandes Potências. Editora Campus. Rio de Janeiro, 1989.
CHURCHILL, Winston Spencer. Memórias da Segunda Guerra Mundial. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 1995.
LUKACKS, John. O Duelo – Churchill x Hitler. Ed. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 2002.
LUKACKS, John. Cinco dias em Londres. Ed. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 2001.
SCHACHT, Hjalmar. Setenta e seis anos de minha vida. Editora 34. São Paulo, 1999.
WYKES, Alan. Hitler. Editora Renes. Rio de Janeiro, 1973.

Axis History Factbook
Nazis and the German Economy
The Economy of Germany
Nazi Economics
The American Almanac
Ludwig von Mises Institute
Asia Times Online
BBC News
Encarta
Oesterreichische Nationalbank
Central Europe Review

terça-feira, outubro 18, 2005

Heterofobia e Racismo

O racismo e o preconceito tiveram, no início do século XX até o fim da Segunda Guerra, seu verdadeiro ápice. Desde então, essas duas atitudes tornaram-se condenáveis pela sociedade e pela justiça. No entanto, de nada vale taxar preconceitos e suprimir tais sentimentos se não se sabe suas origens e porque, após anos de conscientização e várias amargas experiências, o racismo ainda encontra espaço na sociedade.

Autores abordam o racismo focado na origem do relacionamento entre homens e o aparente nascimento do racismo, ainda que inconsciente. Embora o sentimento racista tenha recebido essa nomenclatura muito recentemente, ele é praticado desde os tempos em que os Europeus passaram a explorar o mundo e se deparar com pessoas diferentes. Desde então, o envolvimento de povos com culturas tão distintas passou a ser regido por regras, e a partir delas é que se basearam todos os preconceitos aplicados aos elementos. A base dessa mentalidade baseia-se no Um – o normal, o padrão - e no Outro – o diferente, o inferior, o que não é o Um.

A necessidade de estabelecer uma diferença entre os seres é um atavismo impregnado no espírito humano; esse comportamento passou a adquirir proporções maiores quando a relação entre Um e Outro passou a ser crucial para o desenvolvimento de toda uma sociedade e de um modo de vida, ainda que incipiente. A forma que o Um encontra para tornar-se singular é diferenciar-se dos demais elementos, mas sem extingui-lo, pois isso significaria a perda de sua singularidade. Portanto, preso ao paradoxo de manter-se único, o Um necessita do Outro para sê-lo.


A relação entre Um e Outro foi, ao longo do tempo, estabelecida em níveis de superioridade e inferioridade, como forma de classificar todos os elementos. É nesse caso que surge, segundo o autor, a necessidade ou a justificativa do Um de subjugar e oprimir o Outro. O exemplo mais claro dessa relação de superioridade foi a perseguição aos judeus que culminou no Holocausto. Baseado em teorias científicas que justificavam sua superioridade, o pretenso arianismo preconizava a aniquilação total dos povos inferiores (eslavos, semitas, etc.). Manifestava-se, portanto, o Um na forma de opressor exercendo sua superioridade sobre o Outro, inferior, diferente.
As péssimas experiências racistas ocorridas ao longo do século incentivaram o surgimento de discursos anti-racistas como forma de combater esse mal. Ainda que perdido e sem uma determinada meta, esse discurso adquiriu grandes proporções e permeia toda a mentalidade atual. A principal justificativa anti-racista elimina o mais forte atavismo do racismo: a diferença entre os elementos. O conceito de raça, usado ao longo do século XX, começou a ser derrubado na década de 70 e hoje é praticamente como uma regra. Essa terminologia prega que não há nenhuma diferença entre qualquer grupo humano e mesmo o conceito de etnia fica cientificamente comprometido. Segundo estudiosos, essa nova teoria não elimina o principal problema, pois inegavelmente existe uma diferença, positiva ou não, importante ou não.
Embora o racismo seja tema freqüente de estudos e teses, suas principais motivações ainda são um desafio a ser superado. A constatação de que o racismo surge na formação intelectual de um indivíduo pode ser um caminho para a explicação de suas razões, bem como uma forma de combatê-lo. Permanece, no entanto, a triste de sina de superar um atavismo de bilhões de anos.