domingo, julho 31, 2005

Causas da Segunda Guerra Mundial

"Never, never, never believe any war will be smooth and easy, or that anyone who embarks on the strange voyage can measure the tides and hurricanes he will encounter. The statesman who yields to war fever must realize that once the signal is given, he is no longer the master of policy but the slave of unforeseeable and uncontrollable events."
Sir Winston Churchill

Nenhum conflito influenciou tanto o mundo quanto à Segunda Guerra. No entanto, considerando a recíproca verdadeira, nenhum conflito foi tão Influenciado no mundo quanto esse. Os diversos fatores que atuaram antes, durante e depois do conflito impingiram um toque peculiar à maneira de se guerrear e nos seus reflexos na percepção de mundo na época. Portanto, se a Segunda Guerra alterou o panorama mundial, ela própria também teve seu destino alterado por uma imensidão de fatos.

O primeiro e mais influente é a unificação tardia da Alemanha. Á medida que a Europa saía do Feudalismo, o poder começava a se concentrar na figura do Rei, em detrimento do nobre feudal. Sobre a égide da nobreza real, começaram a se formar os Estados Absolutistas, sendo Portugal o primeiro deles, no Séc. XIV. A organização política do Estado é importante, pois foi ele quem financiou, posteriormente, as grandes navegações, que expandiram os horizontes do mundo e alteraram profundamente o modo de vida na Europa. Logo depois de Portugal, França, Inglaterra, Espanha e Holanda se unificaram e, assim como os portugueses, também passaram a financiar expedições mundo afora para a obtenção de metais preciosos, o padrão de poder vigente. Enquanto esses países seguiam nas suas explorações colonialistas, Alemanha ainda engatinhava na formação de seu Estado moderno e forte, pois ainda predominavam pequenos estados independentes, com pouca união política. Os primeiros passos começaram com a liga Hanseática, um importante vetor de influência na Europa setentrional. Após isso, ocorreu a fundação da Igreja Protestante, ocorrida em 1530, que resultou na Guerra dos Trinta Anos (1618). Esse conflito debilitou ainda mais os Estados germanos e quando Napoleão invadiu a região, não houve como resistir. Com a queda de Napoleão, adveio a Confederação Germânica, que aproximou mais os Estados alemães, embora esse fenômeno tenha sido bem limitado. A fundação do Império Alemão só veio com Bismarck e a vitória na Guerra Franco-Prussiana, em 1871. Embora tenha se estabelecido fortemente, o Império Alemão somente se unificava quase 300 anos depois de Portugal, Franca, Espanha e Inglaterra. Restavam, agora, poucas colônias a serem exploradas, visto que todas elas eram possessões imperiais européias. Isso foi causa de muito atrito entre a Alemanha contra as demais potências européias e consiste na principal causa econômica da Segunda Guerra, uma vez que tem suas raízes na formação do capitalismo, ainda mercantil. Nesse quesito podemos incluir também as teses do Espaço Vital e a Geopolitik alemã(mais antiga), que calcaram seus princípios a partir do estudo da Alemanha inserida no contexto europeu.

Ainda na esfera política, as causas mal-resolvidas da Primeira Guerra também foram determinantes para o início, pois criaram condições políticas turbulentas o suficiente para a ascensão de um Hitler. Parte da crise alemã se deve a incapacidade aliada de perceber seus erros na conduta de pós-guerra, no entanto, não foi somente o Tratado de Versalhes que determinou essa mudança. A mentalidade política da época, principalmente seus pensadores, pregavam que o Estado deveria ser forte, autoritário, rígido e conservador, sendo obrigação do cidadão trabalhar pela Nação. Esse ideal nacionalista não era novo, mas assumia agora um caráter muito forte, principalmente na Primeira Guerra, quando o nacionalismo das potências beligerantes havia adicionado o fator ódio ao conflito militar. A população civil, na Primeira Guerra, teve papel determinante no ímpeto com que seus países combateram. Dias antes do início das mobilizações bélicas, os desfiles militares atraiam multidões ensandecidas que veneravam os soldados e compartilhavam do ideal comum de aniquilar o inimigo. Isso ocorreu tanto na Alemanha quanto na França. Ao fim da guerra, esse ódio ainda era forte e todo esse sentimento se traduziu no Tratado de Versalhes. Ao fim da guerra, portanto, a Alemanha encontrava-se em crise, dividida e sem um governo legítimo. O surgimento da República de Weimar, do ponto de vista econômico e até político, conseguiu aplacar as pretensões de grupos radicais. Seu primeiro teste ocorreu em 1923, quando a Alemanha não conseguiu pagar suas reparações de guerra e sua moeda desvalorizou-se violentamente. Nesse ano uma série de protestos tanto de esquerda quanto de direita (putsch nazista, revolta do Rühr, putsch de Kapp) botou em cheque a República de Weimar. A ascensão de Streseman como primeiro-ministro, o estabelecimento do Rentemark - uma moeda de transição para o Reichsmark -, o Plano Dawes e a austeridade dos gabinetes sucessores contribuíram em muito pela estabilização política e econômica da Alemanha até 1929. Ao contrário do que se afirma, a República de Weimar foi eficiente econômica e politicamente e acabou sucumbindo por uma crise que derrubou o mundo todo. Até 1929, o Partido Nacional-Socialista, bem como os comunistas, vinham perdendo espaço na política alemã. Foi só com a crise que Hitler conseguiu a popularidade que lhe levou ao poder sem ter sido eleito pelo voto popular. É importante salientar que Hitler nunca foi eleito para a Presidência alemã e tornou-se primeiro-ministro após sucessivos gabinetes incompetentes. Portanto, a República de Weimar não foi propriamente à causa de Segunda Guerra. Os reais motivos foram o Tratado de Versalhes e em muito maior grau a crise de 1929, que criou condições que antes não haviam para a meteórica ascensão nazista.

No entanto, não só motivos econômicos e políticos influenciaram a guerra. Uma novidade inaugurada na Segunda Guerra foram a grande amplitude que pequenos motivos alcançaram. Os aspectos pessoais de Hitler, por exemplo, podem ter tido uma influência muito grande na conduta de guerra. É possível que a má vontade dos áulicos da Academia de Belas-Artes de Viena, quando recusaram seu pedido de ingresso, tenham em Hitler causado um ódio tão grande que o fez desistir da carreira. Claro que não se quer, aqui, por a culpa nos artistas austríacos, e sim demonstrar como um pequeno ato pode causar repercussões tão grandes. Se tivesse se tornado um artista, Hitler nunca seria primeiro-ministro.

Existem muitos outros fatores também importantes, mas que não foram determinantes a ponto de sozinhos, causarem o conflito nas proporções que ele aconteceu. Fatos isolados, por exemplo, não eram capazes de causar um conflito enorme, como hoje, talvez, seja possível. A compreensão do contexto político, no entanto, é muito mais importante do que a análise de fatos isolados, pois, afinal, uma gota de exceção não contamina um oceano inteiro de certezas.


Guilherme Spader



Referências Bibliográficas:
* KENNEDY, Paul. Ascensão e Queda das Grandes Potências. Editora Campus, 1989
* VICENTINI, Cláudio. História Geral. São Paulo, 1997.

sábado, julho 30, 2005

A Ascensão de Hitler II

A Imagem de Hitler
Hoje, a percepção de que Hitler representava o caminho da guerra e da destruição não era tão óbvia. Ele era visto apenas como mais um político oportunista do que propriamente como uma ameaça ao sistema. Essa visão equivocada durou até ele assumir o poder, e as classes políticas alemãs só perceberam a dimensão do desastre tarde demais. Alguns sequer o fizeram, pois cooptados pelo partido, passaram a cooperar com os nazistas, achando que aquele era o caminho da vitória. Até mesmo figuras abertamente antinazistas colaboraram impudicamente com Hitler, como Franz von Papen e Hjalmar Schacht, brilhante economista alemão arquiteto da recuperação econômica de 1923.
Da parte dos industriais alemães - os junkers - cabe uma ressalva especial. Assustados com o socialismo do Partido Social-Democratas e apavorados com os comunistas, os grandes industriais alemães apostaram suas fichas em Hitler considerando que ele, em breve, seria defenestrado do jogo político. Estavam apenas o apoiando para futuramente estabelecer um outro governo, mais conservador.
No campo externo, a cegueira era talvez mais grave. Os alemães podem ser desculpados de tal tarefa, pois a partir de março de 1933 a imprensa livre deixou de existir. Nos demais países democráticos da Europa, no entanto, reinava a mais absurda simpatia pelo nazismo alemão. Nesse rol de equivocados, figuram desde pessoas pretensamente esclarecidas á líderes políticos que tinham projetos totalmente antagônicos ao dos alemães. Voltaire Schilling, na análise sobre a Inglaterra deixa bem claro a que ponto isso chegou:

O antinazismo na Grã-Bretanha dos anos 30 não contava com a unanimidade em meio a sua elite. Longe disso. Se bem que as motivações daqueles que simpatizavam com Hitler eram as mais diversas, foi significativo o elevado número das personalidades das altas esferas de Londres, das finanças, do comércio, da política, e mesmo das artes, que devotaram apoio e simpatia ao que se passava na Alemanha dos anos trinta.
Entre esses filonazistas encontrava-se tanto o brilhante economista Lord Keynes (que, em 1919, escrevera um verdadeiro libelo contra o Tratado de Versalhes que sufocara a Alemanha, intitulado “As conseqüências econômicas da paz”) como Lloyd George, ninguém menos do que o ex-primeiro-ministro que, durante a Primeira Guerra Mundial, mobilizara o Império Britânico na derrotar a Alemanha Imperial.
[...]
Até mesmo membros da família real britânica, como foi o caso do Duque de Windsor (Eduardo VIII, que foi forçado a abdicar em 1936) e de sua esposa Wallis Simpson, que igual visitaram Hitler em 1937, deixaram-se seduzir pelo cenário de ordem e congregação patriótica que se formara em torno do nacional-socialismo e da sua liderança.
O famoso casal manifestou publicamente o seu apoio à política alemã, entendendo-a como resultante de uma posição audaz, campeã do antibolchevismo e defensora dos valores ocidentais. Opinião essa que estava longe de ser isolada entre os integrantes da aristocracia britânica que viam em Hitler uma saudável e eficaz barreira contra Stalin.


Na França, a complacência também era forte. A própria formação da República de Vichy e a adesão de ilustres figuras a ela demonstra que os Franceses não só aceitavam a dominação alemã, mas estavam também dispostos a colaborar. Essa dualidade foi posta a prova pelos ingleses quando eles atacaram possessões francesas na África. O colaboracionismo francês poderia por em risco todo o império britânico, pois a frota francesa, a quarta maior do mundo, quase caiu na mão dos nazistas por causa da inépcia francesa.
Até mesmo Ghandi torcia por Hitler. No dia da rendição francesa, o pacifista indiano escreveu no jornal indiano Harijan de 22 de Julho: "Os alemães das futuras gerações honrarão Herr Hitler como um gênio, um homem corajoso, um organizador incomparável e muito mais”.

Evidente que tais manifestações de apoio ao nazismo não eram gratuitas. Atrás delas, existiam diversos fatores, tais como o ódio à Grã-Bretanha e a todo o sistema que ela representava, o desejo de ver o fim das plutocracias Européias, a necessidade de reparar os erros da Primeira Guerra, o medo do socialismo, dentre muitos outros. O problema desses fatores é que, pensando em reconsiderá-los, a classe intelectual e política européia compactuou quase que inteiramente com um ditador que não escondia suas famigeradas intenções. Portanto, a aceitação de Hitler na Europa e no mundo foi natural, como se estivesse surgindo ali um iminente político que, de forma competente, resolveria os problemas da Alemanha.

A Consciência

Muitos historiadores apontam a ascensão de Hitler também por motivos culturais. Antes da Primeira Guerra Mundial, a Europa vivia a Belle Èpoque, o apogeu da cultura e da expressão artística. As economias estavam em franco desenvolvimento e o avanço científico e tecnológico se fazia cada vez mais presente e permeava um futuro cada vez melhor. Reinava, portanto, um otimismo geral; um sentimento de que a Humanidade – ainda que na sua acepção eurocentrista – estava evoluindo. Com o derramamento de sangue que ocorreu na Primeira Guerra, todo esse sentimento otimista converteu-se em pessimismo, até mesmo vergonha. Toda a lógica absurda da guerra era, para alguns, o atestado de que a barbárie, de uma forma ou outra, sempre acabaria voltado e que, inexoravelmente, o destino dos Europeus era guerrear entre si. Se com todo o avanço, humano, científico, tecnológico, cultural, etc nenhum povo conseguia viver em paz com seus vizinhos, então não havia nada mais a fazer, a não ser aceitar o destino beligerante. Essa atmosfera de pessimismo refletiu em todos os Europeus e se manifestou de forma mais forte nas artes. Todos os movimentos artísticos surgidos após a Primeira Guerra negavam toda a herança renascentista que ainda existia na Europa, pois simplesmente esse tipo de arte não servia mais para os novos tempos. Boa parte dos movimentos artísticos, de alguma forma ou outra, traziam um certo pessimismo no seu conteúdo; o Dadaísmo, no seu irracionalismo proposital, chegava a ser irônico com toda a condição importante de arte; o expressionismo era ainda mais cáustico, sendo seu exemplo mais claro a pintura de Edvard Munch, o Grito. Graça Proença, em a História da Arte, dá uma dimensão do espectro artístico desse período:

É nesse contexto complexo, rico em contradições e muitas vezes angustiante que se desenvolve a arte do nosso tempo. Assim, os movimentos e as tendências artísticas, tais como Expressionismo, o Fauvismo, o Cubismo, o Futurismo, o Abstracionismo, o Dadaísmo, o Surrealismo, a Pintura Metafísica, a Op-Art e a Pop-Art expressam, de um modo ou de outro, a perplexidade do homem contemporâneo.
PROENÇA, Graça. História da Arte. São Paulo: Editora Ática. 1999. p. 153.

Pode-se dizer, portanto, que o período do entre-guerras foi um vácuo na consciência Européia, numa época sem referências sólidas e concretas. Do ponto de vista econômico, o Império Britânico já estava em forte declínio; não havia nenhuma outra potência forte e legítima; não havia, também, nenhum líder europeu de projeção, capaz de influência, de alguma forma, o cenário desolador que havia se estabelecido. Nesse contexto, o aparecimento de um líder como Hitler, por si só, já representa uma redenção quase completa. Sem nenhuma referência, culpada pelos erros da guerra e decepcionada com os caminhos que a humanidade estava tomando, todos os cidadãos europeus - desde a classe média burguesa decadente até os grandes e pretensos intelectuais – ficaram cativados e esperançosos com a vinda de Hitler, tal como os religiosos esperam seu Messias. Esse sentimento não foi uniforme e homogêneo, e o país que mais agiu dessa maneira foi, evidente, a Alemanha. Parafraseando Marx, Hitler foi o ópio do povo.

Considerações Finais

Para compreender completamente os motivos da ascensão de Hitler seria necessária uma imersão total na cultura alemã, desde seus costumes até a assimilação total da mentalidade da época. Tais tarefas são praticamente impossíveis, pois são muitas informações em tão pouco tempo. Isso, no entanto, não quer dizer que as análises sobre a época são imprecisas; pelo contrário, pode-se averiguar exatamente o que houve. O grande desafio consiste em saber porque as pessoas cometeram esse erro e dessa maneira, não repeti-lo. A Europa, felizmente, aprendeu a lição.


Guilherme Spader





Fontes
CHURCHILL, Winston Spencer. Memórias da Segunda Guerra Mundial. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 1995.
MASON, David. Churchill. Editora Renes. Rio de Janeiro, 1973.
LUKACKS, John. O Duelo – Churchill x Hitler. Ed. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 2002.
LUKACKS, John. Cinco dias em Londres. Ed. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 2001.
PRITCHARD, John. O Incêndio do Reichstag. Editora Renes. Rio de Janeiro, 1976.
PROENÇA, Graça. História da Arte. Editora Ática. São Paulo, 1999.
SCHACHT, Hjalmar. Setenta e seis anos de minha vida. Editora 34. São Paulo, 1999.
WYKES, Alan. Hitler. Editora Renes. Rio de Janeiro, 1973.

Axis History - www.axishistory.com
Marxist Internet Archive - www.marxists.org
BBC World War Two - http://www.bbc.co.uk/history/war/wwtwo/
Conspirancy Center - http://www.joric.com/Conspiracy/Center.htm

sexta-feira, julho 29, 2005

A Ascensão de Hitler I

* Dividi o trabalho completo em dois, para melhor visualização. Amanha postarei a segunda parte.

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As Origens
É freqüente o questionamento de muitos estudiosos da Segunda Guerra sobre como Hitler, com todas as suas características, conseguiu chegar ao posto máximo da Alemanha em aproximadamente 10 anos de atividade política, suplantando exímios e competentes políticos. É uma pergunta extremamente válida, uma vez que Hitler conseguiu se sobressair em um cipoal de pequenos partidos com plataformas que não diferiam muito da sua. Para compreender corretamente essa ascensão meteórica, devemos entender a situação alemã do pós-guerra, seu sistema político e eleitoral, os demais partidos alemães, a personalidade de Hitler e a influência externa na Alemanha.

A carreira política de Hitler começou quando ele foi designado para espionar um partido socialista, o Partido dos Trabalhadores Alemães. Ainda ligado ao exército, Hitler recebia essas funções de uma espécie de política secreta alemã. Á essa época, o Exército estava agindo como um repressor policial tanto de manifestações quanto de agremiações políticas que ameaçassem, de alguma maneira, a recém estabelecida República de Weimar. Em 12 de Setembro de 1919, Hitler foi ao encontro do partido que deveria espionar e no fim acabou fazendo um pequeno discurso em prol da união da Alemanha. Seu discurso surpreendeu os líderes do pequeno partido, e dessa maneira ele foi cooptado a participar dessas atividades políticas. Desligado definitivamente do exército, em 1920, Hitler passou a dedicar-se exclusivamente ás atividades políticas nesse mesmo partido que ele deveria espionar. Não demorou muito para ele, Hitler, tornar-se líder partidário. Suas medidas foram mudar o nome para Partido Nacional-Socialista Alemão, ou NSDAP (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei), conhecido também como Partido Nazista. Sobre seu comando, o partido começou a crescer gradualmente. Embora as habilidades pessoais de Hitler fossem bem acima da média, ele encontrava-se em um ambiente mais que propicio para que suas idéias fossem aceitas.

De 1919 a 1923, a Alemanha viveu períodos mais que atribulados. Terminada a I Guerra, estabeleceu-se uma guerra civil entre várias facções políticas alemãs, que só acabou em setembro de 1919, ou seja, quase um ano após o fim da Primeira Guerra Mundial. Nesse período, a situação política alemã foi extremamente delicada e só começou a se estabilizar em 1923. Até então, muitos conflitos internos iriam se suceder. O primeiro chanceler da República de Weimar, o Social-Democrata Philipp Scheidemann, teve sua autoridade posta em questionamento várias vezes, quando ocorreram diversas revoltas ao longo da Alemanha, embora todas elas tenham sido debeladas. O ápice da crise ocorreu em 1923, quando o governo alemão não foi capaz de pagar as reparações de Guerra. Em resposta, tropas Francesas e Belgas ocuparam o Rühr, privando a Alemanha de uma valiosa área industrial. A crise econômica agravou-se com a hiperinflação, quando o Marco alemão desvalorizou-se totalmente frente ao dólar. Como o clima político alemão já não era propício à estabilidade, esse novo abalo serviu de impulso para novas revoltas, dentre elas o Putsch de Munique, liderado por Hitler. Nesse episódio, Hitler comandou uma vergonhosa tentativa de tomar o poder a força. Muito influenciado por Mussolini, que recém havia conquistado Roma numa marcha militar, Hitler tencionava fazer o mesmo em direção a Weimar. Ao contrário da Itália, reinava, na Alemanha, apesar de todos os abalos políticos, um forte sentimento de institucionalidade. Apesar de todos os problemas e crises, os alemães não iriam aceitar a tomada de poder dessa forma. Segundo alguns historiadores, foi no fracasso do Putsch que Hitler percebeu que só chegaria ao poder por meios legítimos. Ao sair da cadeia, foi nessa linha que ele melhor se sobressaiu, pois seus dotes de oratória e eloqüência davam-lhe vantagens em relação aos outros políticos.

O avanço pelas urnas
O Partido Nazista, nas suas idéias e no seu líder, era relativamente atraente para os cidadãos alemães desiludidos com a situação de seu país. No entanto, até 1929, não conseguiu crescer eleitoralmente. Nas eleições para o Reichstag de quatro de maio de 1924, os nazistas obtiveram algo em torno de dois milhões de votos (6,55% do total), conquistando 32 cadeiras. Nas eleições de sete de dezembro do mesmo ano, na segunda eleição para o Parlamento, os nazistas obtiveram somente 900 mil votos (3% do total), conquistando apenas 14 cadeiras. Nessas eleições, se comparado aos grandes partidos, o percentual nazista torna-se pífio. Mesmo em relação aos partidos menores alemães, como Partido Bávaro Alemão (19 cadeiras), Partido Popular Alemão (51 cadeiras), o percentual nacional-socialista ainda era inexpressivo. Nas eleições para o Reichstag de 1928, o desempenho alemão foi mais sofrível, obtendo apenas 810 mil votos (2,63% do total), conquistando apenas 12 cadeiras.

A maior parte das críticas á ascensão nazista dá-se contra a República de Weimar, pois ela não fora eficiente no intuito de aplacar a instabilidade política alemã. Isso é incorreto, pois ao longo da década de 20 a situação tanto política quanto econômica da Alemanha estava melhorando drasticamente. Desde 1923, a Alemanha vinha pagando, com a ajuda do Plano Dawes, todas as dívidas. No campo político, os partidos de idéias radicais estavam perdendo espaço para agremiações políticas mais sérias, como o Partido Popular Alemão, Partido Central e o Partido Social-Democrata Alemão. Nesse tempo, Comunistas, Nazistas e partidos ligados aos Freikorps diminuíram sua influência no Parlamento alemão. Portanto, a República de Weimar estava neutralizando os radicalismos na Alemanha e assentando as bases para um futuro político mais estável.

Essa situação danosa para os nazistas viria a terminar em 1929, com o crack da Bolsa, na Terça-Feira Negra. Essa crise econômica pode ser considerada como o principal motivo da ascensão de Hitler ao poder, pois criou a ele um cenário mais que favorável para que suas idéias fossem disseminadas e aceitas. Com o desemprego em alta, a insatisfação política aumentou e novamente começaram os protestos não só contra o governo vigente, mas também contra o Tratado de Versalhes e suas exigências. Nas eleições para o parlamento, os principais vencedores foram os pequenos partidos radicais, pulverizando as cadeiras e dificultando cada vez mais um governo majoritário. Nesse pleito os nazistas aumentaram em sete vezes seus votos em relação à eleição anterior, obtendo 6.379.672 (18,25% do total), conquistando 107 cadeiras no Parlamento, tornando-se o segundo maior partido. Os comunistas também cresceram em relação ao pleito anterior, conquistando 77 cadeiras, contra 54 do pleito de 1928.

Gráfico Eleitoral


Nos gabinetes anteriores, os Chanceleres eleitos sempre conseguiam formar uma chapa majoritária no Reichstag para garantir a governabilidade. A partir de 1929, isso se tornou cada vez mais difícil. Sem essa maioria, o chefe de governo, além de não conseguir governar bem, poderia ser destituído pelo Reichstag por uma Moção de Não-Confiança, uma ferramenta mal regulamentada pelos constituintes de Weimar. O primeiro Chanceler atingido pela crise de governabilidade foi Müller, que renunciou do cargo em março de 1930. Esse seria o último gabinete eleito por consenso no Reichstag. No seu lugar Hindenburg nomeou, após muitas discussões políticas, o economista Heinrich Brüning. Sua principal ação foi impor uma medida econômica na forma de decreto muito impopular e de caráter emergencial, evocando o Artigo 48 da Constituição de Weimar, que dava poderes ao presidente de editar uma medida sem a aprovação do Reichstag. Essa medida foi, no entanto, derrubada por uma apertada votação no Reichstag. Com a negativa parlamentar, Hindenburg dissolveu o Reichstag e convocou novas eleições, o que foi um erro político crasso. Ao convocar novas eleições, Hindenburg e Brüning comprometeram o escasso apoio político que lhes restavam. O resultado foi o fortalecimento dos nacional-socialistas, em detrimento dos partidos centros-conservadores que sustentaram os gabinetes anteriores. Como forma de neutralizar o partido nazista, somente uma coalizão liderada pelos Social-Democratas garantiu o mandato de Brüning até 1932. Ao longo de seus 26 meses de governo, Heinrich Brüning governou à base de decretos presidenciais, que, na sua maioria, tomavam decisões nada populares - embora muito eficientes -, como cortar benefícios dos desempregados e diminuir gastos públicos. Em 1932 vieram as eleições presidenciais, sendo os principais concorrentes Hitler e Hindenburg, tendo esse último ganho por uma margem pequena de votos. Aqui cabe uma ressalva: Hitler nunca venceu uma eleição majoritária na Alemanha e só chegou ao poder por meio de manobras políticas. Após a eleição de Hindenburg, Heinrich Brüning foi demitido pelo presidente e Franz von Papen foi nomeado para o cargo de Chanceler, com o intuito de formar um governo de coalizão para, de alguma forma, neutralizar o poder nazista, o que não deu certo. Hitler exigiu a Chancelaria com plenos poderes, pedido que foi negado. Embora não tenha conseguido a Chancelaria, Hitler continuou como força majoritária no cenário político alemão e forçou a demissão de Papen após oito meses de governo através de uma Moção de Não Confiança ao governo Papen imposto por Hindenburg. Essa moção foi aceita por maioria esmagadora no Reichstag, sendo que novas eleições foram convocadas. Nesse pleito, os nazistas perderam algo em torno de dois milhões de votos, embora continuasse sendo o partido de maior representação. Isso iludiu os social-democratas e comunistas, pois juntos, teoricamente, eles teriam mais votos que os Nazistas. No lugar de Von Papen, na Chancelaria, assumiu o principal conselheiro de Hindenburg e grande desafeto de Hitler, Kurt von Schleicher, que teria como meta a mesma que von Papen: estabelecer um governo com maioria no Reichstag. Incapaz de cumprir tal tarefa, ele não durou dois meses no cargo e foi demitido por Hindenburg após ter sugerido nova eleição para o Reichstag (seria a terceira no ano). Finalmente, então, chega a vez de Hitler. Aliando-se ao Partido Central de von Papen, Hitler propõe sua eleição para chefe de governo com Papen na vice-chancelaria. Embora tenha ocupado somente três ministérios, o poder de Hitler agora se estendia por toda a Alemanha e nada mais poderia impedir a escalada de terror nazista.

O plano de Hitler de tomar o poder estava praticamente concretizado. Hitler era, agora, o Chanceler da Alemanha e Hermann Göering era o Governador-Geral da Prússia, principal estado Alemão, onde estava concentrada a maior parte da população Alemã. Estar no poder executivo era crucial para os Nazistas, pois dessa maneira eles detinham o poder sobre a polícia. Á essa época era comum a transformação de comícios políticos em batalhas campais, onde os membros dos partidos se engalfinhavam rua à rua, até que a polícia chegasse ou algum grupo debandasse. Controlando a polícia, Hitler podia usá-la para prender desafetos políticos, destruir comitês partidários, proibir encontros, calar a imprensa dos outros partidos, investigar qualquer cidadão, acobertar crimes cometidos pelos próprios nazistas, coagir cidadãos, entre muitas outras práticas criminosas.À medida que a escalada de terror aumentava, um fato muito importante selou simbolicamente o destino a República de Weimar. Em 27 de fevereiro de 1933 um incêndio criminoso diminui à cinzas o imponente prédio do Reichstag alemão. Imediatamente, os nazistas culparam os comunistas e social-democratas pelo crime. Muito se discute, hoje, sobre quem deflagrou o incêndio. É impossível precisar quem realmente mandou Marinus van der Lubbe por fogo no Reichstag ou se ele fez isso por conta própria. O fato é que com o incêndio Hitler teve um pretexto perfeito para agir de forma mais agressiva.

O resultado das eleições realizadas dois meses após o incêndio foram ótimos para os nazistas. Embora institucionalmente dentro das regras, a eleição nada tinha de legal. Muitos deputados comunistas e social-democratas sequer conseguiram assumir suas cadeiras no Parlamento devido às diversas prisões. Uma semana antes do pleito, somente os nazistas podiam fazer campanha. A conseqüência disso tudo é que Hitler conseguiu a aprovação de um decreto (o Reichstag Fire Decree) que lhe dava poderes ditatoriais. Para tal, seriam necessários dois terços dos votos no Parlamento, o que foi facilmente obtido. Somente 84 deputados votaram contra, contra 441 à favor.

quarta-feira, julho 27, 2005

As Origens da Blitzkrieg

Os Primórdios

"Estou construindo carros de guerra seguros e cobertos, e quando eles avançarem, com seus canhões, por entre as linhas inimigas, farão recuar até mesmo as mais compactas formações adversárias, e atrás deles a infantaria pode evoluir a salvo e sem oposição".
Leonardo Da vinci, em 1482.

A frase acima resumo todo o desenvolvimento dos blindados feito até agora, sem exceções. É incrível, porém, que um conspícuo conceito, tão simples, porém genial, tenha demorado tanto para ser utilizado. Apenas em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, apareceram os famosos tanques. Á época, todas as potências belingerantes tinham capacidades de desenvolver esse tipo de unidade, no entanto, imaginou-se que não haviam motores fortes o suficiente para impulsionar tão pesadas estruturas. O desenvolvimento empírico das armas acabou determinando, portanto, o nascimento da arma mais letal que um campo de batalha já viu, responsável pela maior revolução tática das Guerras, que inferiu uma revolução na estratégia bélica.

Até a Primeira Guerra, a arma tática móvel passível de fazer a diferença no campo de batalha era o cavalo. Com o aprimoramento das armas - rifles, metralhadoras, etc - essa arma passou a perder eficiência. Um cavalo, no front ocidental, não tinha utilidade alguma. Primeiro, ele deveria transpor trincheiras grandes e cercadas de arames farpados. Feita a tarefa, teria de enfrentar fogo de metralhadoras a posteriormente granadas. Passada essa parte, ele iria avançar contra um trincheira apinhada de soldados armados, que poderiam muito bem, em ínfimos segundos, levantar-se e alvejar o eqüino com qualquer arma de fogo.

Assim, estabeleceu-se a guerra estática. Não havia nenhuma arma capaz de romper esse estado de equilibrio. Desse panorama, temos dois desfechos. Um deles é o alto números de baixa na Primeira Guerra e o outro é o advento dos blindados. A batalha que exemplifica claramente a lógica militar absurda estabelecida, causa das enormes baixas, é Verdun. Durante 9 meses mais de um milhão de soldados morreram. Portanto, o advento de uma nova arma era uma questão de tempo. Já seus efeitos seriam prolongados até 1945, com a Blitzkrieg. Até formar-se o conceito de Guerra Relâmpago, muitas tentativas foram feitas.

A Primeira Blitzkrieg: Sturmtruppen

A primeira experiência de Blitkrieg não foi feita com tanques e sim com tropas especiais, as Sturmtruppen. Os soldados que integravam essa tropa eram a elite do Exército Alemão e somente após um exigente treinamento o soldado ingressava nesses corpos. O propósito dessas tropas era primoradialmente o ataque e a rapidez. O treinamento era focado na iniciativa e na agressividade(em termos táticos) do soldado, tendo ele muito mais responsabilidade e liberdade para agir na frente de batalha. Dessa maneira, a disciplina não era tão trabalhada nessas tropas de elite quanto nas regulares e dava-se muito mais ênfase na cooperação e relação entre os soldados e superiores do que propriamente a inflexibilidade da cadeia hierarquica das tropas comuns. Havia esse treinamento especial porque, ao contrário de um soldado de trincheiras, que era estático, os Sturmtruppen era unidades móveis, bem armadas, rápidas, destinadas a penetrar nas defesas inimigas desorganizá-las por completo, não sendo seu objetivo, portanto, sua destruição física propriamente dita. Tudo, nas Sturmtruppen, era pensado com o intuito de atacar.

O armamento padrão consistia em, no mínimo, uma granada M1915 ou M1916 e a arma primária era o rifle Karabiner 98 (M1898AZ), uma versão compacta do Gewehr 98 (M1898). No entanto, essa arma não atendia totalmente às exigências e foi parcialmente substituída pela Bergman MP18, que usava o calibre 9mm Parabellum, desenvolvida por Hugo Schmiesser especialmente para equipar essas tropas. O armamento secundáro era normalmente uma Luger P08 ou alguma pistola Mauser. A formação mais natural era um pelotão de metralhadoras, um de morteiros e às vezes um pelotão de lança-chamas.

A primeira experiência dessas tropas ocorreu na Rússia, às margens do rio Dvina. Os russos havia bloqueado todas as passagens de acesso ao porto de Riga, uma importante via de acesso marítimo. Com posições sólidas, os Russos comandados pelo General Klembowsky, estavam capazes, inclusive, de desfechar ataques contra as posições alemãs. O General alemão Oscar von Huntier, ao invés de fazer um ataque frontal, fez uso das Sturmtruppen, empregando-as no ataque na retaguarda russa cruzando o rio e atacando por detrás das principais defesas. Os russos não esperavam o ataque por essa área devido à distância e às dificuldades de serem feitas ofensivas através dela. Dessa maneira, com a retaguarda comprometida, os ataques alemães posteriores feitos às defesas principais dos russos foram eficazes.

A batalha por Riga provou a eficácia das Sturmtruppen, mas no geral seu uso foi comprometido exatamente pela falta da espinha dorsal da guerra relâmpago: o tanque. Essas tropas foram eficientes no seu serviço, mas qualquer contra-ataque ou reorganização inimiga botava em cheque as conquistas realizadas por essas tropas. Faltava, portanto, um elemento de apoio aproximado que consolidasse os avanços feitos por essas unidades de vanguarda. As consequências disso seriam sentidas muito depois, quando o desenvolvimento da Blitzkrieg alemã no pós-guerra iria usar, além dos ensinamentos de Fuller, as lições aprendidas com os sucessos e fracassos das Sturmtruppen. Na blitzkrieg moderna, os tanques fariam o papel das Sturmtruppen e elas, por usa vez, fariam o papel de infantaria motorizada.

A Blitzkrieg blindada

O conceito de Blitzkrieg blindada teve caminhos diferentes. Ele inicou-se em 1916, quando 476 tanques britânicos Mark I foram usados na ofensiva de Cambrai. Inicialmente, a ofensiva foi um sucesso, deixando as defesas alemãs impotentes para reagir. No entanto, dias depois, uma nova ofensiva alemã retomou todo o terreno conquistado. Com esse sucesso parcial, os uso dos tanques passou a ser considerado, mas sempre com reserva pelos comandantes aliados mais antigos.

Mark I, primeiro tanque inglês
A despeito da desconfiança sobre os tanques, a Triplice Entente começou a organizar o Plano 1919, encabeçado por Fuller. Esse plano teria como estratégia desfechar golpes rápidos e sucessivos, para desorganizar por completo as defesas adversárias. Várias levas de tanques seriam utilizados, desde os mais pesados, para romper as defesas iniciais, até os mais rápidos, que entrariam em cena para dar prosseguimento à perseguição das tropas remanescentes, mantendo o estado de desorganização do adversário, para que ele não estivesse capaz de estabelecer nenhuma defesa ou desfechar algum contra-ataque. Nesse ataque seriam usados mais de 6000 tanques. No entanto, o Plano 1919 não aconteceu devido a precoce rendiçao alemã. O esforço tático e os estudos de campo foram deixados de lado, e à medida que se passavam os anos, os orçamentos de guerra e a atenção ao Exército iam diminuindo. Os Aliados nunca chegaram vislumbrar o grande poder que tinham em mãos. Ignorada essa experiência, os Aliados só iam vê-la 23 anos depois, quando os alemães estariam usando-a na França. Nela estariam contido todos os ensinamentos de 1919 e décadas de aprimoramento, tudo isso tutelado por livros de guerra ingleses e russos, que eram leitura obrigatória nas escolas de oficiais alemães.

terça-feira, julho 26, 2005

Governo de Hitler e a Economia Alemã

Sob o controle ditatorial, Hitler deu início a grandes mudanças econômicas. Há uma certa controvérsia sobre os aspectos econômicos do governo de Hitler, pois nem todas as suas medidas foram saudáveis a médio e longo prazo. As políticas econômicas do governo de Bruning, cautelosas e fiscalistas, vinham sanando as finanças e organizando o Estado alemão nesse aspecto. Hitler, ao contrário, pôs em prática um largo programa de intervencionismo econômico, baseado no keynesianismo, embora se distanciasse deste em muitos pontos.

O desemprego na Alemanha de 1933 era de aproximadamente 6 milhões. Esse número diminuiu para 300.000 em 1939. Essa diminuição fabulosa, no entanto, ocorreu por diversos motivos, como alterações estatísticas e projetos governamentais:

- As mulheres deixaram de ser contadas como desempregadas a partir de 1933
- Judeus, a partir de 1935, perderam a condição de cidadãos do Reich, não contando mais como desempregados
- Mulheres jovens que se casavam eram excluídas dos cálculos.
- Ao desempregado eram dadas duas opções: ou trabalhar para o governo sob baixíssimos salários ou permanecer segregado da esfera governamental, longe de todas as suas obrigações, mas também vantagens, como saúde, lazer, etc.
- As convocações para o exército começaram a se acelerar. Até 1939, 1,4 milhões de alemães haviam sido convocados. Para armar esse contigente, a produção industrial aumentou e a procura por mão-de-obra aumentou também.
- Criação da Frente Alemã de Trabalho, dirigida por Robert Ley, que pôs em prática programas governamentais de trabalho que absorveram boa parte da mão-de-obra disponível, ora empregando-a no melhoramento da infra-estrutura do país, ora nas indústrias e na produção bélica.

Essa medidas ocorreram a custa de pesadíssimos investimentos por parte do Estado, comprometendo a longo prazo as finanças. O que se viu, em conseqüência disso, foi um déficit crescente. De 1928 até 1939, a arrecadação do Estado havia subido de 10 bilhões de Reichsmarks para 15 bilhões, no entando os gastos, no mesmo período, subiram de 12 bilhões de Reichsmarks para 30 bilhões. Em 1939, o déficit acumulado era de 40 bilhões de Reichsmarks.

A inflação, nesse periodo, cresceu tanto que em 1936 foi decretado o congelamento de preços. O governo alemão foi incapaz de lidar com o controle de preços e sua interferência constante apenas engessou a economia e dificultou o aumento gradual e equilibrado da produção. A partir de 1936, o dirigismo econômico passou, gradualmente, a substituir a adaptação automática da produção pelo mercado, de maneira que a regulamentação econômica passou a ser maior.

Os planos ecomômicos alemães, tanto de Schacht quanto de Göring, era de tornar a Alemanha autosuficiente na indústria para que ela pudesse sobreviver à guerra e aos bloqueios britânicos. Essas metas, no entanto, não foram cumpridas e em 1939 a Alemanha não estava plenamente recuperada. Os dados demonstram como a Alemanha estava quando iniciou a guerra:

* A Alemanha ainda importava 33% de matérias-primas necessárias.
* O déficit acumulado era de 40 bilhões de Reichsmarks.
* A Balança Comercial atestava um déficit de 100 milhões de Reichsmarks
* O desemprego estava virtualmente suprimido
* Consumo anual de alimentos, em 1937, havia diminuído em pão de trigo, carne, bacin, leite, ovos, peixes, açucar, frutas tropicais e cerveja, comparando-se com os dados de 1927. Só houve aumento de consumo em pão de centeio, queijo e batata.
* O valor real dos salários, em 1938, era praticamente o mesmo de 1928.

segunda-feira, julho 25, 2005

Günther von Kluge

Günther von Kluge foi um importante general alemão da Segunda Guerra Mundial e um grande teórico e incentivador da Blitzkrieg.

Nascido em Poznam, Alemanha, em 30 de outubro de 1882, ele ingressou no exército Alemão e lutou durante a Primeira Guerra Mundial como tenente de uma unidade de artilharia.

Permaneceu no Exército até 1933, quando foi designado para o Wehrkreis VI, na Westphalia. Em 1938, Kluge discordou as políticas de agressão promovidas pelo governo alemão, motivo pelo qual foi destituído de seu cargo.

Com a eclosão de Segunda Guerra Mundial, no entanto, ele foi reconvocado e assumiu o 4º Exército na invasão da Polônia. Em 1940, tomou parte na invasão da França e Rússia. Com a destituição de von Bock como comandante do grupo de exércitos do Centro, von Kluge assumiu seu lugar e deu prosseguimento à invasão da Rússia.

Em 27 de outubro de 1943, von Kluge sofreu um grave acidente de carro. Seriamente ferido, só pôde voltar à ativa em julho de 1944. No retorno, assumiu o comando das forças alemãs no oeste.

Embora não estivesse envolvido no complô contra Hitler ocorrido em 1944, von Kluge tornou-se suspeito devido a sua proximidade com Henning von Tresckow, antigo chefe do seu Estado-Maior na Rússia. Kluge tinha ciência de que haviam planos para matar o Führer, mas nunca colaborou de forma alguma com os conspiradores.

As suas relações com Hitler pioram com os resultados da Operação Lüttich, da qual von Kluge foi comandante. A operação estava fadada ao fracasso devido a insistência de Hitler em manter posições insustentáveis (como a linha Caen-Avranches) e também de atacar sem condições favoráveis (Operação Lüttich).

Durante os estágios finais da Operação, von Kluge ficou incomunicável por aproximadamente 48 horas, o que somente aumentou as suspeitas sobre ele, uma vez que a Gestapo o apontava como conspirador do atentado a bomba de Stauffemberg.

Convocado por Hitler a voltar para a Alemanha em 16 de agosto, Kluge pressentiu que seria punido pelo líder nazista e cometeu suicídio em 19 de agosto, ingerindo cianureto.

Terminava a carreira de um brilhante general da guerra relâmpago.

domingo, julho 24, 2005

O Bombardeio de Dresden

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O ataque aéreo à Dresden, ocorrido em 13 a 15 de fevereiro de 1945, foi um devastador ataque desferido em conjunto pela USAAF e RAF, onde foram empregadas bombas incendiárias que destruíram quase toda a cidade e suas instalações.
A grande polêmica desse ataque trata-se de seu enquadramento em crime de guerra ou não. Antes de se discutir o mérito das informações, razões e fatos que existem a respeito, é necessário precisar sob qual ponto se está considerando o ataque à Dresden. Listo-os:

* Ponto de vista estritamente legal, desconsiderando demais fatores.
* Ponto de vista legal em relação ás leis aplicadas nos Tribunais de Nuremberg, ou seja, a aplicação nos aliados das mesmas leis que foram aplicadas nos alemães em Nuremberg.
* Ponto de vista moral e politicamente correto, considerando demais fatores, como bom senso, discernimento, violência excessiva, etc.

A diferença sobre qual ponto de vista se está analisando o fato é crucial para determinar se foi um crime ou não. Não existe, por exemplo, impedimento de um ataque ser correto sob o ponto de vista estritamente legal, mas ser considerado criminoso no lado moral. As leis nem sempre contemplam especificamente todas as hipóteses de guerra e mesmo que o façam, ainda sim podem ser submetidas ao bom senso, que visa analisar o contexto e a situação corrente para determinar se uma ação foi um crime ou não. Embora as leis sejam um tanto inflexíveis, elas regulam o comportamento de guerra e são importantíssimas para evitar abusos e excessos por parte de ambos os lados, tanto sobre a forma institucional, quando um Estado passa a cometer excessos sob a forma de ordens, quanto sobre a forma individual, quando um soldado, por vontade pessoal, venha a agir com crueldade desnecessária. Não quero, aqui, delongar-me sobre preâmbulos das leis de guerra e sim estabelecer uma linha consensual de raciocínio a respeito dos crimes de guerra e suas aplicações no episódio de Dresden. Após a exposição da maior parte dos fatos, retorno novamente aos pontos de vistas inicialmente abordados para então falar a respeito do ataque.
Compilei, ao longo de muitas discussões, os principais argumentos dos que consideram o ataque um crime e adicionei alguns outros que também podem vir a ser questões abordadas. Junto com a sentença, vem a minha opinião, logo abaixo.

1) Dresden era uma cidade sem importância estratégica:

Em 1945, Dresden era a sétima maior cidade alemã em população¹, com 642.143 habitantes². Era, também, um importantíssimo eixo ferroviário³, por onde passava a famosa ferrovia Berlim-Leipzig-Dresden-Praga. Essa ferrovia foi a primeira linha de longa distância da Alemanha e crucial para a unificação alemã, em 187(14). Na Segunda Guerra, milhares de judeus por seus trilhos5, bem como uma quantidade incalculável de armas e suprimentos militares. Dresden era o ponto-chave para o fluxo militar Leste-Oeste. Após os bombardeios, as instalações ferroviárias foram seriamente danificadas e perderam muito de sua capacidade.
Dresden era, também, o entroncamento de três grandes rotas de transporte e comunicação: (1) Berlin-Praga-Viena (2) Munique-Breslau e (3) Hamburgo-Leipzig. Como ponto chave de comunicação no denso complexo de transporte da Saxônia, Dresden era conectada diretamente a Leipzig e Berlim por duas linhas ferroviárias6.

2) Dresden era uma cidade indefesa:

Dresden possuía defesas antiaéreas, embora elas estivessem em pequeno número e praticamente não causaram dano algum aos bombardeios atacantes. Os reportes de vôo ingleses registraram pouca atividade defensiva.
O sistema de defesa de Dresden estava subordinado ao Comando Administrativo da Luftwaffe7, fazendo parte da IV Área (Dresden) e III Área (Berlim)(8).

O fato de Dresden ter poucas defesas antiaéreas não lhe retira o status de alvo legitimo, pois ela não era uma Cidade Livre* e tinha indústrias que produziam artefatos imprescindíveis ao desenvolvimento e produção de armas de guerra.

* O termo Cidade Livre vem do equivalente em inglês Open City; a tradução literal não teria o mesmo sentido que possui no inglês, portanto adota-se a adjetivo livre, ao invés de aberto. Uma cidade é declarada livre quando ela não possui nenhum tipo de instalação ou tropa militar. Os alemães nunca fizeram tal declaração em relação a Dresden.

3) Dresden não possuía indústrias:

De acordo com Escritório de Armas do Alto Comando Alemão, Dresden continha 127 fábricas. Elas produziam produtos como miras ópticas para bombardeios, canopis, componentes eletrônicos para radares, fábrica de fusíveis, componentes de aeronaves para a Junkers, equipamentos do cockpit de Messerchmitts, máscaras de gás que supriam quase toda a Alemanha e fábrica de cigarros. O parque fabril de Dresden empregava 10.000 trabalhadores, sendo 1500 nas fábricas de fusíveis9.
O livro do ano de Dresden (Dresdner Jahrbuch) de 1942, ou seja, uma publicação alemã de tempo de guerra, faz a seguinte descrição de Dresden:

Anyone who knows Dresden only as a cultural city, with its immortal architectural monuments and unique landscape environment, would rightly be very surprised to be made aware of the extensive and versatile industrial activity, with all its varied ramifications, that make Dresden one of the foremost industrial locations of the Reich.

Qualquer um que conheça Dresden somente como uma cidade cultural, com sua imortal arquitetura de monumentos e paisagem ímpar, certamente ficaria surpreso ao ficar sabendo da extensa e versátil atividade industrial, com todas suas ramificações, o que faz Dresden uma das mais proeminentes alocações industriais do Reich.
(grifos meus)

John W. Nelson, Ph.D. em Estudos sobre a Alemanha, escreveu a seguinte frase, em uma análise do livro Dresden: Tuesday, February 13, 1945, de Frederick Taylor:

As the seventh largest city in Germany, Dresden possessed a substantial industrial center with a number of precision engineering companies (the Zeiss-Ikon optical factory being perhaps the most well-known.) The city's reputation may have been built on its luxury industries, but Taylor reveals how the same factories that produced the typewriters, sewing machines, lingerie, cigarettes, and waffle irons easily made the wartime transition to produce searchlights, directional guidance equipment, aircraft and torpedo parts, machine guns, cartridge cases, and various other armaments. Cultural city or not, the Dresdeners' contribution to the German war effort was not insignificant. As Taylor notes, the 1942 Dresden Yearbook trumpeted the city's stature as "one of the foremost industrial locations of the Reich.

Como sétima maior cidade Alemã, Dresden possuía um centro industrial formidável, com inúmeras companhias de engenharia (fábrica de aparelhos ópticos Zeiss-Ikon , talvez a mais conhecida). A reputação da cidade talvez tenha sido construída sobre suas indústrias de luxo, mas Taylor revela como as mesmas fábricas que produziam máquinas de escrever e de costurar, lingerie, cigarros e barras de ferro facilmente passaram a produzir canhões de luz, guindastes, aeronaves, componentes de torpedos, metralhadoras, cartuchos e vários outros armamentos. Sendo uma cidade cultural ou não, a contribuição de Dresden e seus habitantes ao esforço de guerra não foi insignificante. Como Taylor cita, o Livro do Ano de Dresden de 1942 afirmava ser a cidade “uma das mais proeminentes alocações industriais do Reich.


4) Dresden tinha milhares de refugiados quando foi atacada

Não existem números certos em relação à quantidade de refugiados quando foi atacada. Dresden era apenas um entreposto ferroviário, onde muitos refugiados passavam, indo em direção ao oeste, mas não necessariamente ali permanecendo.

5) O bombardeio de Dresden foi desnecessário pois a guerra já estava ganha.

Dois meses antes de Dresden ser atacada, em 17 de dezembro de 1944, os alemães haviam iniciado a ofensiva nas Ardenas com aproximadamente 250.000 soldados(10), totalizando 70 divisões, 15 delas blindadas(11), causando 76.000 baixas aliadas(12) (8607 mortos, 47.139 feridos, 21.144 prisioneiros e desaparecidos), bem como a destruição e ou captura de 1284 metralhadoras, 542 morteiros, 1344 caminhões e 237 veículos de combate(13). No dia 3 da janeiro, a Luftwaffe, num esforço derradeiro, atacou aeródromos aliados com 700 aviões, causando a perda aos aliados de 156 aeronaves(14).
Esse ataque foi um duro golpe nas tropas americanas e nos seus comandantes, aumentando ainda mais o pessimismo e a cautela nas operações. Por acreditar que a Alemanha não era mais capaz de reagir, negligenciaram as defesas prevendo possíveis ataques alemães.

6) Milhares de pessoas morreram no ataque à Dresden

Não existe um número preciso de mortes, mas estimativas baseadas em relatórios emitidos pelos próprios alemães dão uma idéia aproximada desse número. Existem dois relatórios oficiais emitidos pelos alemães semanas depois do ataque:

- Relatório policial de Dresden, emitido em 15 de março de 1945, confirmou, até o dia 10 do mesmo mês, 18.375 mortes.
- Relatório das autoridades berlinenses (Tagesbefehl n. 47) emitido em 22 de março de 1945, acusou 20.204 mortes e estabeleceu o número de 25.000 mortes como estimativa final.

Recontagens feitas por historiadores conceituados (Götz Bergander - 1977, Friedrich Reichert – 1994, Frederick Taylor - 2004) trabalham na hipótese de 25.000 até, no máximo, 35.000 vítimas, uma vez que foram descobertos novos corpos anos depois do ataque, a maioria em escavações para novas construções.
Existe, no entanto, uma falsa estimativa que aponta as mortes de 35.000 a 135.000 pessoas, o que é, no mínimo, fantasioso. O principal artífice desses números é David Irving, um historiador revisionista condenado pela justiça americana.
Ele se baseia numa falsificação da Ordem do Dia (Tagesbefehl n. 47), onde foi acrescentado um zero no fim das estimativas, elevando seu número para cifras enormes. O TB 47 original apontava 20.204 mortes e deixava em estimativa máxima 25.000 mortos; com a falsificação esses números se elevaram para 202.040, com o número máximo de 250.000.
A prova desses números foi no julgamento(15) onde David Irving processou Deborah Lipstadt e sua editora, a Pinguin Books. Ltda., por calúnia. Como no mérito das acusações estavam inclusas as obras de Irving e a veracidade histórica do bombardeio de Dresden, todas elas foram analisadas e numa apuração mais detalhada provou-se que David Irving, além de se basear em documentos que ele sabia que eram falsificados, usava passagem de livros modificadas e notas de rodapé que não representavam o real sentido que o autor citado havia expressado.
Outro fator que somou contra Irving foram os dados conflitantes a respeito do número de mortes. Segundo Richard J. Evans, professor de História Moderna de Cambridge, Irving não possui uma cifra exata a respeito das vítimas em Dresden. Na primeira edição do livro Apocalipse 1945 - A Destruição de Dresden, de 1966(16), estimou entre 100.000 e 250.000 mortes. Em 1993, em um vídeo destinado ao público australiano, Irving estimou em aproximadamente 130.000 mortes. Em 1996, em um livro sobre Goebbels(17), ele alterou novamente os números, que ficariam entre 60.000 e 100.000 mortes.
É notável, portanto, a inconstância de David Irving em apresentar números plausíveis e prová-los através de documentos e testemunhos. A má fé e a falsificação de documentos e provas históricas não foi só averiguada no assunto Dresden e sim em outros livros, a maioria relativizando ou até negando o Holocausto, em exercício espúrio de pseudorevisionismo histórico.
Por fim, há uma ultima alegação a respeito de um número alto de vítimas. Como o ataque havia sido com bombas incendiárias, corpos teriam sido carbonizados até virarem cinzas, tornando a contagem impossível. Isso foi desconsiderado por opiniões de peritos que seriam necessárias temperaturas absurdas e principalmente concentradas nos corpos, como em um forno de cremação, situação essa inexistente em Dresden.

7) O bombardeio de Dresden foi um crime, de acordo com as leis aplicadas nos alemães em Nuremberg, em 1946.

Em todos os tribunais estabelecidos depois da guerra que julgaram crimes de guerra, somente dois pilotos alemães foram condenados por ataques aéreos. O principal motivo foi ter bombardeado Belgrado após ela ter sido considerada uma Cidade Livre. Portanto, como Dresden não era uma cidade livre, não há nenhum dispositivo legal capaz de incriminar os aliados pelo ataque.
A implicação de Dresden em crime de guerra tornaria todos os bombardeios alemães contra cidades inglesas lotadas de civis também criminosos, uma vez que o Alto Comando da Luftwaffe(OKL) e Hitler tinham em mente – e botaram em prática – planos para abalar a moral do povo alemão disseminando o terror na população civil(18,19).

8) Os aliados lançaram combustível sobre a cidade para alimentar os incêndios.

Não há nenhuma menção nos relatórios aliados sobre essa prática. No entanto, a própria lógica desmente essa afirmação, pois seria totalmente inviável e ineficiente tal prática.

9) Caças aliados realizaram ataques à baixa altura contra civis.

Essa afirmação é sustentada por David Irving, mas tanto suas alegações quanto a lógica desmentem a sentença. Essa questão foi levantada devido ao testemunho de poucas pessoas que foram entrevistadas por Irving, sendo que uma delas alega ter visto um caça aliado “apontar” suas armas em direção a civis e atirado. Entrevistada depois, essa mesma testemunha alegou estar inconsciente no momento do ataque e que afirmou isso baseada em um relato feito por um amigo vitimado no ataque.
Nas pesquisas para o livro Apocalipse 1945 – A Destruição de Dresden, Irving alega ter entrevistado mais de trezentos aviadores aliados. Em todos esses questionamentos, ele, em nenhum momento, fez o cruzamento de relatos e perguntou aos pilotos se realmente haviam ocorrido ataques à baixa altura contra civis.
É estranho, também, que a testemunha tenha visto o caça “apontar” suas armas, visto que no setor haviam só dois tipos de caças, Mosquito e Mustang, e nenhum deles possuía torretas de defesa, que poderiam “apontar” armas a um determinado alvo. Para tais caças realizarem ataques à civis, eles deveriam mergulhar contra civis e atirar, sem, no entanto, “apontar” armas, visto que elas estão sobre a fuselagem.
Sob a explosão de bombas e fortíssimos incêndios, provavelmente tomado pelo desespero, é inconcebível que alguém tivesse tempo para olhar para o céu e conseguir visualizar uma aeronave à mais de 600 quilômetros horários em mergulho e ainda assim perceber sua trajetória para chegar a conclusão de que as mesmas estavam “apontando” armas ou mirando em civis.
Além disso, os Mosquitos utilizados no ataque à Dresden tinham como função sinalizar os alvos e nessa função ficariam engajados, sem ter tempo para metralhar civis indefesos. Já os Mustangs envolvidos no ataque estavam realizando escolta à altas altitudes, e para atacar civis, deveriam descer em espiral sobre o alvo, realizar os ataques e então subir novamente ao nível de vôo anterior para depois retornar às suas bases. Para tal manobra simplesmente não haveria combustível suficiente.
Embora essa alegação seja improcedente, a lógica novamente a desmente. É totalmente impensável que tais manobras tenham sido feitas. Mosquitos e Mustangs são aeronaves de alto desempenho e não foram projetadas para mergulhos, embora sejam capazes da fazê-o. Manobras de mergulho são arriscadíssimas e nas condições de Dresden nenhum comandante arriscaria aeronaves e valiosas tripulações sobre alvos de oportunidade. Os caças Mustang e Mosquito atuaram como, respectivasmente, caça de escolta e sinalizador e não teriam tempo hábil para efetuar tais ataques.

10) Churchill condenou o bombardeio de Dresden.

Churchill nunca considerou Dresden um crime de guerra. Sua posição foi simples e concisa e representou uma opinião pessoal, a de que, com o fim da guerra, estava na hora de rever as posições adotadas pelos aliados em relação a Alemanha. Isso não deixa de embutir uma contradição, pois foi Churchill o principal incentivador dos ataques aéreos contra a Alemanha, inclusive na adoção da tática de bombardeio de área.

11) A Estratégia dos aliados era vitimar civis alemães.

Os aliados tinham ciência de que vitimar a população civil não ajudaria em nada o esforço de guerra e antes de efetuar tal prática, estavam focados em destruir as estruturas de transporte e comunicação da Alemanha, antes mesmo das indústrias bélicas.

12) Os principais documentos a respeito do bombardeio de Dresden foram emitidos pelos governos aliados, representando assim a versão oficial dada sobre a guerra, sujeita às devidas pressões e alterações que tais governos podem, eventualmente, vir a fazer para satisfazer seus interesses.

Existem documentos oficiais do governo alemão em tempo de guerra que comprovam os dados aqui apontados. Embora todo o tipo de informação esteja sujeita à pressões de terceiros, o mesmo vale para os dados que apontam Dresden como um crime de guerra. A suspeita é recíproca.

13) Se Dresden não é um crime, então os bombardeios alemães às cidades inglesas também não foram.

Sim, pois não havia, à época, nenhuma lei internacional sobre a guerra aérea nem experiências anteriores. O bombardeio à cidades com alvos civis foi uma opção tomada pelos dois lados. A Alemanha teve mais vítimas e sofreu mais porque ficou vulnerável aos ataques aéreos a partir de 1944, quando a eficiência dos bombardeios era enorme em relação a 1940, e à época da Batalha da Inglaterra, quando a superioridade era da Luftwaffe.

14) Pessoas notáveis consideram o ataque à Dresden um crime de guerra.

Grande parte dessas pessoas se baseiam, ás vezes sem saber, nas informações de David Irving. Como foi demonstrado aqui, esse individuo já foi condenado pela justiça americana e seu livro foi, diversas vezes, contestado e rebatido por outros historiadores (Taylor, Neilands, Reichert, Evans, Bergander, etc).
Portanto, muitos consideram o ataque a Dresden um crime de guerra porque não têm conhecimento completo dos fatos ou se os têm, ignoram-no e continuam com as mesmas alegações. Grande parte dessas pessoas considera Irving totalmente certo, em detrimento de outros historiadores, muito mais sérios e responsáveis, com pesquisas muito mais extensas e rigorosas que a de David Irving.


Conclusões

O ataque à Dresden é uma discussão envolvida de mitos que nada ajudam para esclarecer o assunto. Além disso, considerar Dresden um crime de guerra serve de embasamento para várias ideologias.
Nazistas e revisionistas têm esse interesse como forma de relativizar crimes de guerra e crimes contra a humanidade, como o Holocausto e demais arbitrariedades cometidas pelos nazistas, retirando-lhes a culpa.
Por outro lado, foi bastante comum, durante a Guerra Fria, o bloco comunista disseminar mitos a respeito de Dresden para demonstrar que os aliados tiveram uma participação espúria na Segunda Guerra e que também haviam cometido crimes de guerra.
Mesmo que o ataque a Dresden não seja um crime de guerra sob nenhum aspecto legal, há o aspecto moral, que é mais subjetivo e sujeito a meras opiniões. Nada impede de considerar o bombardeio um episódio horrível e lamentável; isso é consenso, afinal, 25.000 mortes, ou seja, o número mínimo, é um número altíssimo. Dresden foi um fato lamentável, mas não um crime de guerra. Existiram tantos outros e nenhum deles é citado, como o bombardeio de Guernica ou o ataque a Franpol, um vilarejo de 3.000 habitantes que simplesmente foi dizimando pela Lutfwaffe, que estava testando novas armas.
No entanto, as análises dos ataques aéreos (e de todo e qualquer fato histórico) não devem ser feitas de forma emotiva, e sim da maneira mais racional e imparcial possível, deixando convicções pré-estabelecidas de lado.


Autor
Guilherme Spader

Notas
1. Censo de 17 de maio de 1939, reportado no Statesman's Year Book, Londres, 1945
2. Statistisches Handbuch von Deutschland: 1928-1944 (Livro Alemão de Estatísticas: 1928-1944), Munique, 1949, p. 19.
3. The Leipzig-Dresden railway line through time (Ferrovia Leipzig Dresden através do tempo), John Lance, 1998, p. 17.
4. The Leipzig-Dresden railway line through time (Ferrovia Leipzig Dresden através do tempo), John Lance, 1998, p. 14.
5. The Leipzig-Dresden railway line through time (Ferrovia Leipzig Dresden através do tempo), John Lance, 1998, p. 17.
6. Chambers Enciclopédia, Nova Iorque, 1950, Vol. IV, p. 636.
7. Centro Histórico da Força Aérea Alemã, Análise Histórica do Bombardeio de Dresden, 1953.
8. Serviço Secreto Britânico, T-3472, Alemanha: Condições aéreas em Dresden, 6 de abril de 1945.
9. NEILANDS, Robin. The Bomber War, 23 de junho de 2001.
10. BALDWIN, Hanson W. Batalhas Ganhas e Perdidas. Rio de Janeiro, 1978, p. 428.
11. CHURCHILL, Winston Spencer. Memórias da Segunda Guerra Mundial. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 1995, p. 1016
12. BALDWIN, Hanson W. Batalhas Ganhas e Perdidas. Biblioteca do Exército. Rio de Janeiro, 1978, p. 417.
13. BALDWIN, Hanson W. Batalhas Ganhas e Perdidas. Biblioteca do Exército. Rio de Janeiro, 1978, p. 417.
14. BALDWIN, Hanson W. Batalhas Ganhas e Perdidas. Biblioteca do Exército. Rio de Janeiro, 1978, p. 416.
15. Irving x Lipstadt - www.holocaustdenialontrial.com
16. IRVING, David. A Destruição de Dresden. Corgi, London, 1966.
17. IRVING, David. The Mastermind of the Third Reich. Focal Point Publications. 1996.
18. “Reservo-me decidir sobre os ataques de terror como meio de represálias” Diretiva n.º 17 para se conduzir a Guerra Aérea e Naval contra a Inglaterra, Item IV apud Ascenção e Queda do Terceiro Reich. SHIRER, Willian L. Shirer. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1964, p. 217, vol III.
19. “Juntamente com a propaganda e ataques periódicos para implantar o terror, enunciados como represaria, esse crescente enfraquecimento de bases de abastecimento de alimentos paralisará e dobrará finalmente a vontade do povo em querer resistir, e com isso forçará o governo a capitular. General Jodl, em seu diário apud Ascenção e Queda do Terceiro Reich. SHIRER, Willian L. Shirer. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1964, p. 209, vol III.

Bibliografia
CHURCHILL, Winston Spencer. Memórias da Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro, 1995, Editora Nova Fronteira.
VICENTINI, Cláudio. História Geral. São Paulo, 1997, Editora Scipione.
BALDWIN, Hanson W. Batalhas Ganhas e Perdidas. Rio de Janeiro, 1978, Biblioteca do Exército.
LANCE, John. The Leipzig-Dresden railway line through time. Londres, 1998.
IRVING, David. The Mastermind of the Third Reich. Londres, 1996. Focal Point Publications.
IRVING, David. A Destruição de Dresden. Corgi, London, 1966
Irving x Lipstadt - Holocaust Denial On Trial

sábado, julho 23, 2005

Primeiro Post

Depois de muito hesitar, criei coragem e dei início a esse projeto. Vou tantar não me ater só em guerras, pelo contrário, vou ser bem amplo nos assuntos. Espero que funcione.

Here we go!
Wish me good luck!