segunda-feira, maio 14, 2007

O Torcedor Alcoolizado

É o ponto de partida do texto a notícia do site do Sindicato de Médicos do Rio Grande do Sul (SIMERS) sobre o Projeto de Lei do deputado Miki Breier (PSB) que propõe proibir venda e consumo de bebidas alcoólicas nos estádios de futebol para reduzir a violência nos jogos. A notícia segue em anexo.
Essa notícia faz parte do debate sobre a venda de bebidas alcoólicas nos estádios e nas suas imediações em dias de partidas. Com o aumento de violência nos estádios, diversas autoridades e diversos membros da sociedade civil passaram a advogar pelo fim da comercialização de bebidas alcoólicas como uma forma de combater a escalada de crimes e confrontos entre torcedores e policiais. Alegam que a bebida é o fator que transforma o simples torcedor em um individuo perigoso, que se envolve em brigas e perpetra atos de vandalismo que, se sóbrio, nunca cometeria. O discurso no Rio Grande do Sul não é novo, mas só agora está tomando sua forma legal. Em outros estados, como São Paulo e Minas Gerais, as bebidas já foram totalmente proibidas ou severamente restringidas.
Nesse tema, vislumbrei uma clara essencialização, a formação de um estereótipo. O alvo é o "torcedor alcoolizado", apontado como a causa geradora da violência. Dessa forma, do empresário ao funcionário, do estudante ao professor, do magistrado ao rapaz com antecedentes, todos eles - enquanto torcedores - estando alcoolizados, são encarados da mesma forma, são essencializados como "o torcedor alcoolizado".
Os favoráveis a proibição explicam que a violência é gerada principalmente pela alteração no estado anímico dos torcedores causada pelas bebidas alcoólicas. Sem essa causa, estar-se-ia eliminando a conduta indesejada, ou seja, estar-se-ia eliminando - ou ao menos diminuindo drasticamente, como que num passe de mágica - a violência nos estádios de futebol.
Esse discurso ignora uma miríade de fatores que também geram violência e são muito mais importantes e determinantes. De início, sem muita investigação, podemos constatar atualmente a falta de aplicação das mais simples leis penais, a falta de preparo das autoridades, as péssimas condições que se encontram os estádios (o que dificulta a ação de policiais, como a revista inicial e a pronta intervenção), a falta de educação e responsabilidade dos torcedores, entre outros. Todos esses fatores geram muito mais violência que as bebidas alcoólicas e, principalmente, são passíveis de combate. Na essencialização do torcedor, no entanto, esses fatores são eliminados ou minorados.
A essencialização da bebida alcoólica nos estádios não resiste a uma mínima análise empírica. A proibição nos estádios de São Paulo não resolveu o problema da violência nos estádios. Torcedores ainda se confrontam, torcedores continuam morrendo, os problemas de violência ainda persistem e as torcidas organizadas são atualmente quadrilhas armadas. O pouco de violência que foi diminuído se deve mais a outras medidas, como aumento de policiamento e diminuição da capacidade dos estádios, do que propriamente a proibição de bebida alcoólicas.
Naturalmente, as bebidas alcoólicas são, sim, parte do problema, e são sim fatores geradores de violência, mas no cômputo geral são um fator pequeno, pertos dos demais. Transpondo para números, o álcool seria 5% do problema, enquanto problemas estruturais dos antigos estádios brasileiros seriam 30%, a falta de educação e responsabilidade das pessoas 30%, a falta de políticas públicas de segurança mais 30% e os 5% restantes para fatores diversos. A proporção de importancia dos problemas pode variar, e pode muito diferir da exposta, mas a importância do álcool como fator gerador de violência perto de outros fatores continua a mesma.
Com esse texto não digo que sou contra - nem a favor - da proibição do comércio de bebidas alcoólicas no estádio. Meu argumento é que se alguém deseja combater a violência nos estádios de futebol, ela deve empregar seus esforços proporcionalmente em todos os fatores e então, esgotadas as possibilidades, voltar-se aos fatores menores. Caso contrário, estará respaldado como promotor da paz nos estádios aquele político ou membro da sociedade que lutar e conseguir proibir a venda de bebidas alcoólicas, quando, na verdade, ele atacou o menor dos fatores e não fez virtualmente nada pela sociedade, a não ser privá-la de um Direito.

quarta-feira, abril 25, 2007

Grêmio, Imortal Tricolor

Qualquer que seja a explicação para o que aconteceu na partida de hoje, dia 20 de abril de 2007, ela deve obrigatoriamente começar com a palavra Grêmio. E com o Grêmio deve terminar, pois acontecimentos como esse pertencem tão somente ao universo tricolor de feitos e glórias.

A façanha por si só dispensa quaisquer palavras, porque elas são insuficienes nestes momentos. Elas alcançam apenas os momentos fugazes da conquista, as meras efemeridades do jogo. À sua essência, sua razão de ser, resta-nos apenas instigar nossas mentes a mentalizar o impossível que hoje ocorreu.


Jogador algum sentiu cansaço. Jogador algum sentiu fadiga. No peito da
cada um bateu, por noventa minutos, o coração de 30 mil torcedores. E
no peito de cada torcedor, por noventa minutos, bateu o coração de 11
determinados jogadores.

Já provamos outrora a nosso valor e garra. Quando ousa a força
esmorecer, o firme pulso que move essa máquina tricolor trata de dar
seu grito mais alto.

E esse grito se ouviu hoje, dia 20 de abril de 2007.

O brado forte gremista há de retumbar por todo o Rio Grande do Sul.
Nos seus ecos estarão a clara mensagem que no Olimpico 30 mil corações
pulsam em 11 e 11 pulsam em 30 mil. Os feitos e glórias com o
Grêmio começam, e com o Grêmio terminam.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Fedor von Bock

Fedor von Bock (3 de dezembro de 1880 - 4 de maio de 1945) foi um Marechal-de-Campo alemão que combateu na Segunda Guerra Mundial, onde comandou o Grupo de Exércitos do Centro no ataque a Russia, na Operação Barbarossa. Embora reprovasse o nazismo, von Bock sempre se manteve distante de questões políticas, tanto nas tratativas com os dirigentes nazistas tanto com os conspiradores.

Nascido em Küstrin, Alemanha, ingressou no Exército em 1898, como Segundo-tenente. Na Primeira Guerra Mundial, inicialmente com a patente de capitão, integrou o Estado-Maior do Exército. Agraciado com a Pour le Mérite, von Bock terminou o conflito com a patente de Major, como Chefe de Operações do Estado-Maior do Grupo de Exércitos Deustscher Kronprinz. Ao longo do conflito, von Bock ainda acumulou diversas funções burocráticas e de gabinete, ao invés de comandar diretamente unidades de campo.

Após o fim do conflito, permaneceu na ativa, onde foi transferido para o Estado-Maior do Exército. Em 1920, alcançou a patente de tenente-coronel, como Chefe do Estado-Maior do Wehrkreis III. Ao longo da década de 20, von Bock foi galgando posições no Exército. Em 1924, comandou o II. Batalhão do 4º Regimento de Infantaria; depois, já com o posto de Coronel, ingressou no Estado-Maior desse mesmo regimento, para logo depois de tornar o comandante. Em 1931, von Bock foi transferido para Stettin, onde assumiu o comando da 2º Divisão e do Wehrkreis II, cargo que ocupou até 1935, com a tomada do poder pelos nazistas e a consequênte reformulação completa do Reichswehr.

Em 1935, com a criação da Wehrmacht, von Bock ascendeu de forma mais rápida na hierarquia militar, tornando-se General der Infanterie em 1935 e Generaloberst (General de Grupo de Exércitos) em 1938. Em 1941, recebeu de Hitler, juntamente com outros 12 Generais, o posto de Generalfeldmarschall (Marechal de Campo), em tese a patente mais alto do Exército Alemão. Ao início da guerra, junto com Gerd von Rundstedt, von Leeb e Kleist, von Bock era o mais antigo e experiente comandante de campo.

Em 1938, coordenou a invasão da Tchecoeslováquia. Em 1939, na invasão da Polônia, comandou o Grupo de Exércitos Norte, que invadiu a Polônia pelo noroeste, com o 4º Exército e pela Prússia, com o 3º Exército, alcançando em duas semanas a capital polonesa, Varsóvia, e cercanco-a. Varsóvia ainda resistiu por duas semanas ao cerco alemão, mas o destino da batalha já estava definido assim que as tropas alemães quebraram a linha defensiva do inimigo, levando suas forças ao colapso. Pela atuação destacada na campanha polonesa, von Bock foi agraciado, ao fim da campanha, com a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro (Ritterkreuz des Eisernen Kreuzes, em alemão).

Completada a invasão, a Wehrmacht passou por uma reformulação. Com base na experiência polonesa, a Panzerwaffe foi remodelada e novas metodologias estratégicas foram adotadas. Para a invasão da França, o então Grupo de Exércitos Norte passou a ser denominado Grupo de Exércitos B, contando agora com o 6º Exército, comandado por Walter von Reichenau, e com o 18º Exército, sob o comando de Georg von Küchler. Contando com poucas unidades blindadas e motorizadas, a função de von Bock seria comandar a invasão dos países baixos, para, na Bélgica, atrair as principais forças francesas e britânicas. Uma vez travado o combate, o grosso do exército alemão invadiria a França pelas Ardenas, contornando o flanco direito francês e cortando a linha aliada.

Embora congregasse nas suas fileiras apenas duas divisões Panzer, o Grupo de Exércitos B enfrentou as melhores divisões blindadas francesas, obtendo relativo sucesso, limitado, no entanto, pelo desempenheno dos Panzer I e II que estavam empregados nas tropas de von Bock. Após a rendição belga, o Grupo de Exércitos B continuou atacando, empregando suas forças em direção a Dunquerque, onde as tropas aliadas estavam sendo evacuadas. Com o passo de Calais totalmente dominado, von Bock agrupou alguma de suas forças no Somme, onde a travessia foi feita sem dificuldades. A rendição francesa veio logo após, em 25 de junho.

Antes da invasão a Rússia, nova reformulação ocorreu na Wehrmacht, com o ingresso, na Panzerwaffe, de novos armamentos; a principal mudança não se deu em números mas sim em qualidade. Na invasão da França, 2/3 dos tanques eram leves; para a Operação Barbarossa, 2/3 eram agora tanques médios. O então Grupo de Exércitos B foi renomeado Grupo de Exércitos Centro. Von Bock teria o principal objetivo da operação: capturar Moscou e forçar o armistício, exatamente como os alemães haviam feito nas invasões anteriores. Para tal feito, von Bock contaria com o 4º e 9º Exército e os 2º e 3º Panzergruppen (Guderian e Hoth), que tinham nas suas linhas 7 divisões panzer e 7 divisões motorizadas.

Iniciada a invasão, a arrancada foi espetacular; pegas de surpresa, as forças russas não tiveram outra alternativa a não ser enclausurar-se em bolsões, que eram depois liquidados. As unidades de vanguarda do Grupo de Exército Centro chegavam a cumprir 80 km por dia. Por conta dessa avanço fabuloso, o qual as unidades de infantaria não conseguiam acompanhar, von Bock recebeu, mais de uma vez, orientações do Estado-Maior do Exército para reter seus Panzergruppe até o apoio aproximado da infantaria.

A medida que as tropas da Wehrmacht avançavam, no entanto, o vigor diminuia. Pesadas baixas, extensão demasiada das linhas e, principalmente, inicio do inverno russo, diminuiam drásticamente o poder combativo das forças blindadas. Somado a esses problemas naturais, havia a ingerência de Hitler sobre os rumos das forças blindadas. No arrancada para Moscou, von Bock por diversas vezes teve suas principais forças remanejadas para outras direções, ora para apoiar as investidas do Grupo de Exércitos Sul, ora para integrar as forças destacas para tomar Leningrado, ao norte. No início de outubro, finalmente, von Bock conseguiu dar início a investida contra a capital russa, e chegaria perto dela no final de novembro, quando algumas unidades de vanguarda, inclusive, chegaram a ver as torres do Kremlin. A feroz defesa russa, somada ao vigor do inverno, fez com que, no entanto, a ofensiva final não lograsse sucesso. Esse revés representava a primeira grande derrota do Exército Alemão, pondo abaixo o mito da invencibilidade. Quando ficou claro que Moscou não seria capturada, Hitler deu início a um expurgo na frente oriental. Von Bock não foi poupado, sendo substituído por von Kluge; junto com ele, outros generais também foram afastados, como Guderian, Hoth, Hoepner, Halder, Brauchitsch, von Leeb, etc.

Após a demissão, ocorrida em 19 de novembro, von Bock, que já estava com a saúde debilitada, ficou afastado do serviço ativo por um ano, quando assumiu o Grupo de Exércitos Sul e, depois, o Grupo de Exércitos B. A permanência, no entanto, foi curta, pois seis meses depois von Bock se afastou novamente por motivos de saúde. Depois desses cargos, von Bock não mais retornou ao serviço ativo. Em maio de 1945, foi seriamente ferido em um ataque aéreo realizados por caças britânicos. Veio a falecer no dia seguinte, em 4 de maio de 1945, com 64 anos.

quarta-feira, outubro 25, 2006

A Força Normativa da Constituição

Resenha do texto A Força Normativa da Constituição, de Konrad Hesse.

O Texto de Hesse aborda diversas questões pertinentes ao Direito Constitucional, muitas delas em discordância com teses anteriores, como a de Lassalle, sobre os fatores de constituição real e os de constituição normativa. Preconiza Hesse que esses dois fatores têm estreita ligação e condicionam-se reciprocamente e "eventual ênfase numa ou noutra direção leva quase inevitavelmente aos extremos de uma norma despida de qualquer elemento da realidade ou de uma realidade esvaziada de qualquer elemento normativo". Dessa forma, é imperioso encontrar o equilíbrio entre uma constituição provida de situações fáticas e uma constituição normativa, com toda a sua pretensão de eficácia que se calcará (1) na vinculação aos fatores reais do presente que se pretende regular e ser regulada e (2) nas disposições materiais e normativas de seu conteúdo.

Na vinculação aos fatores reais, serão observados se a substância da qual trabalha a Constituição está em consonância com seus pressupostos normativos. A Constituição deve, como ponto de partida, trabalhar sobre a substância do presente, e a partir daí abstrair seus objetivos e metas. Para tal, deve levar em conta fatores políticos, econômicos, sociais, etc. Isso contradiz a tese de Lassalle, que afirma que esses fatores, por si só, constituem uma real constituição, e que a constituição normativa ("o pedaço de papel") obrigatoriamente sucumbe em caso de conflito entre ambas.

Outro aspecto que Hesse aborda compreende um aspecto mais fechado, que são as disposições materiais e normativas da constituição. Em relação ao conteúdo, afirma que quanto mais "uma Constituição lograr corresponder à natureza singular do presente, tanto mais seguro há de ser o desenvolvimento de sua força normativa". Como a constituição fica fundamentada em fatores mutáveis, deve ser susceptível a adaptações. Para evitar o engessamento de seu conteúdo e a perda de sua eficácia, deverão constar, somente, "poucos princípios fundamentais", que, com o passar do tempo e a decorrência de mudanças, sempre permanecem atuais e pertinentes. Por fim, a constituição não deverá dirigir-se a extremos nos seus pressupostos sob pena de sacrificar os princípios que busca concretizar. Dessa forma, a constituição que queira consagrar o federalismo deverá dosar um pouco de unitarismo e a divisão de poderes, caso desejada, deverá ter incorporada, na sua estrutura, alguma forma de concentração de poder.

Em referência às disposições normativas, Hesse considera temerário à constituição a tendência naturalmente exarcebada de alteração, o que coloca em risco sua força normativa e sua confiança. Por fim, aborda o aspecto da interpretação, que tem significado decisivo para a "consolidação e preservação de sua força normativa". A interpretação a que se fala, no entanto, não segue rigorosamente os meios fornecidos por outras práxis jurídicas, como a subsunção lógica e construção conceitual. Como a constituição está condicionada a fatores reais, que fogem da realidade estritamente jurídica, cabe a interpretação contemplar esses condicionantes e correlacioná-los com as proposições normativas da constituição.O resguardo desses princípios basilares constitui tarefa prima do Direito Constitucional e da doutrina em geral, pois é na constituição que se cristaliza a história, a cultura, a sociedade e, principalmente, espírito de um povo.

terça-feira, junho 13, 2006

Quatro novas estratégias de marketing

Nunca consumidores tiveram tanto poder de escolha em relação aos produtos que desejam comprar e nunca as empresas investiram tanto em saber e entender seus clientes. Essa tem sido a tendência que resultou em conseqüências profundas para as empresas que se dispõem a competir para valer. O tema pode ser encarado de várias maneiras. Recentemente, quatro novas constatações surgiram, cada qual com uma abordagem diferente.
A primeira abordagem trata de um novo padrão de consumo constatado em consumidores emergentes. A constatação básica foi que diversos clientes estão dispostos a pagar preços altos por determinado produto em determinada área e, por outro lado, em outras categorias, está disposto a pagar o menos preço possível. Trata-se de um processo de escolha seletiva; em uma parte se gasta mais, que seriam o trading-up, e para equilibrar o orçamento, pensa-se mais no preço, trading-down. A categoria de trading-down movimenta uma quantidade muito maior desses recursos, de forma que é nessa área que grandes empresas e corporações atuam. Essa modalidade exige uma postura diferente dos modelos anteriores. Nesse caso, não basta cortar custos para reduzir o preço ou retirar certos atributos do produto para barateá-lo. Para se beneficiar nessa categoria é necessário seguir alguns princípios, como: evitar o "meio", ou seja, sair da linha intermediária de consumo e ir ao extremo, ao trading-down; manter constante a busca de melhor qualidade pelo menor preço; ouvir sempre os clientes e manter um comprometimento constante e mudar as regras do jogo.
O trading-up também pode ser uma opção, que, diferente da categoria anterior, representaria uma nova modalidade, uma espécie de "novo luxo". Com as mudanças econômicas ocorridas em diversos países, passe-se por um aumento de renda que permite às pessoas de renda intermediária adquirir produtos de luxo. Ou seja, uma vez adquirido os artigos de necessidades básicas, as pessoas estão dispostas a adquirir produtos que satisfaçam suas demandas emocionais. É aí que atua o trading-up. Trata-se de se posicionar logo abaixo das marcas tradicionais de luxo, vendendo em volumes muito maiores que os habituais, com uma margem de lucro superior ás empresas de condição intermediária. Isso alia mark-up e exigência alta em um plano novo, o que, de certa forma, evita os efeitos da curva de demanda.
Para se beneficiar disso, são necessárias medidas importantes, como busca constante pela liderança no mercado, sempre estar com a iniciativa de inovar, sempre buscar o melhor custo benefício, romper com a curva de demanda com preços altos e demandas elevadas, ser dono ou coordenar a cadeia de valor e não se acomodar no sucesso inicial da empreitada.
Os exemplos de empresas que adotaram o trading-up apelando para o emocional obtiveram bons resultados. Quatro espaços se distinguem, como o espaço de espaço de conexão, de busca, de cuidados pessoais e de estilo individual. O trading-up e trading-down são um processo globalizado, que atinge todos os continentes. Embora cada região guarde suas peculidariedades, o processo se dá de maneira uniforme e homogênea. A conclusão que se tira dessa nova constatação é que não há formas de domesticar o consumidor. O que se deve fazer é mudar, inovar e oferecer sempre o melhor, sempre com o intuito de que a opção é do cliente e não o contrário.
A segunda abordagem trata dos modelos mentais dos consumidores. Embora o pensamento inicial leve a idéia de que cada segmento consumidor tem suas particularidades, existe um modelo básico e padronizado muito semelhante. E não se trata somente de regiões limitadas ou só em um país e sim de uma forma global de comportamento, o que faz com que um cliente da França, do Egito, do Japão e dos Estados Unidos se porte de maneira semelhante. Isso ocorre porque, antes de mais nada, o modelo de consciente e subconsciente – o foco dos modelos mentais – está alheio a influências culturais e sociais e se prende mais à condição humana, comum a todos.
Essa abordagem vai ao lado mais introspectivo do consumidor, explorando áreas muito subjetivas. Para perceber essa percepção, o estudo deve contar com uma análise criteriosa do comportamento do consumidor e a sua associação dos produtos às imagens que se formam no cérebro, normalmente na forma de metáforas, e disso se depreende um arquétipo. Para conceber uma determinada mensagem, o consumidor pode fazer várias associações metafóricas, mas todas elas dirigem-se ao arquétipo padrão. O objetivo é interpretar essas associações e discernir, dentre elas, as diferenças e semelhanças em modelos mentais. Em posse dessas dados, a empresa poderá focar sua estratégia de marketing e direcionar melhor os investimentos a serem feitos no produto e no cliente.
A terceira abordagem envolve os processos de decisão de um cliente na hora da compra. Saber por que ele optou por determinado produto ou empresa e por que ele fez isso é crucial para atingir bons resultados de venda. Uma forma de se estudar o processo é o CDP, sigla em inglês de Processo de Decisão do Consumidor. O CDP decompõe o processo de decisão do consumidor em milhares de elementos táticos que afetam as decisões: das atitudes dos consumidores à influência de preços competitivos, das mensagem publicitárias às estratégias de venda, das emoções dos consumidores às características dos produtos. Em seguida, utiliza todos os dados para medir a importância de cada fator na decisão do consumidor. Para obter essas informações, são necessários cinco passos. O primeiro envolve entrevistas individuais e pormenorizadas que fornecem o entendimento primário da questão. O segundo passo é utilizar as informações do primeiro em mapas e estabelecer as fases da compra, que são incubação – período em que o consumidor trabalha a idéia de compra, o que pode durar vários anos – gatilho, pesquisa e compra, e pós-compra. No terceiro passo, as fases de compra são divididas em subitens e submetidas a pesquisas de opinião, abordando cada item. Na penúltima fase, estabelece-se qual fator é mais importante em uma compra e qual a forma de dar prioridade a ele em uma estratégia de marketing, que pode ser desde o período de incubação até o pós-compra. Por fim, no ultimo passo, os dados obtidos por meio do CDP são alavancados para impulsionar as oportunidades de receita. Ou seja, após a constatação de todo o processo, a empresa pode desfrutar das opções que tem e tornar seus investimentos mais eficazes.
O quarto texto envolve o comportamento do cliente na loja. Os gestos e os movimentos feitos na hora da compra permitem identificar os padrões que regem os hábitos de consumo. Uma forma de analisar isso é usar imagens de câmeras de vídeo para observar os consumidores na loja e, caso necessário, ligar o comportamento constatado com outros fatores. Isso vai diagnosticar, por exemplo, como uma loja pode dispor suas mercadorias no espaço ou o que o cliente faz enquanto espera na fila. Ir às comprar é encarado de maneira diferente em várias regiões do mundo. Na América Latina, por conta da insegurança, as compras são feitas em shoppings, enquanto na Europa predominam muito as lojas de departamentos. Outra mudança importante trata da composição demográfica dos compradores, que influi muito na hora da compra.

sexta-feira, junho 02, 2006

Pausa para a poesia

O vernáculo conosco a troçar
Disso poucos teriam percebido
Só trocar o I pelo U e deixar
o lixo e luxo tão parecidos

Quando um T errante tropeçou
Em dois vocábulos perdidos
E no fim das contas nem notou
que Pária e Pátria são parecidos

Seguir em frente planejando
Em regra como tal concebido
Exceção a comprovar, constatando
Que fato e flato não são parecidos

sábado, maio 13, 2006

A Sociologia no Brasil

Não se pode conceber o exato momento em que a Sociologia surgiu no Brasil, pois a inserção dessa nova ciência ocorreu de forma gradual e por vezes de forma inconsciente. A vinda da Sociologia ao Brasil está ligada às transformações sócios-políticas ocorridas na Europa. O desenvolvimento, consolidação e reconhecimento do capitalismo como sistema econômico – no caso, em sua fase monopolista –, a ascenção da burguesia nas classes sociais, o processo de urbanização brasileiro e a Europa como referência cultural e intelectual fez com que a Sociologia chegasse ao Brasil.
Os primeiros pensadores brasileiros nessa área não foram propriamente sociólogos, mas deixaram sua marca nos estudos da sociedade brasileira. Os Sertões, de Euclides da Cunha e os livros de Aluísio de Azevedo, notadamente o Cortiço, são obras que abordam diretamente a questão social no Brasil. A referência de pensadores europeus nessas obras é clara; no romance O Cortiço, Aluísio de Azevedo, o determinismo do meio é exarcebado na trama que se desenvolve em torno de um conjunto de habitações no Rio de Janeiro, onde personagens de diferentes origens e personalidades acabam assemelhando-se tanto em virtudes como em vícios em pura e única razão do meio em que vivem.
Esse período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial poderia ser considerado a origem do pensamento sociológico no Brasil, embora ainda sem definição, propósito e objetivo claros. Ainda assim, as condições existentes no período seriam cruciais para o florescimento de teóricos que, anos depois, focalizariam seus estudos com o foco na Sociologia, mesmo sem formação científica.

O advento da Sociologia no Brasil

A Sociologia como matéria na classe escolar é decorrência de uma reforma do ensino brasileiro, promovida em 1925 pelo médico Juvenil da Rocha Vaz, que estabeleceu a sociologia como cadeira da formação clássica. Muitas escolas surgiram com a sociologia no ensino, mas essa mudança só atingia o que hoje é conhecido como Ensino Médio.
No entanto, não demorou muito para a Sociologia alcançar um nível maior, o ensino superior. Na início década de 30, surgiram três centros de estudo universitários; dois em São Paulo e um no Rio de Janeiro. Dessa maneira, os trabalhos intelectuais de pensadores brasileiros da área – Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Fernando de Azevedo, Sérgio Buarque de Holanda – passaram a aparecer no cenário nacional, aprimorando o debate sociológico e trazendo-o para a esfera científica e nela estabelecendo, inclusive, objetivos e metas para o pensamento sociológico, que era agir para a mudança e modernização de uma estrutura social arcaica.
As primeiras escolas superiores buscaram no exterior professores que viriam a preparar os primeiros sociólogos brasileiros. A Escola Livre de Sociologia e Política, de São Paulo, recebeu a influência da sociologia norte-americana através dos Profs. Donald Pierson, Radcliff-Brown (britânico), Horace Davis, Samuel Lowrie, entre outros. Na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP predominou, inicialmente, a influência francesa de professores como Roger Bastide, Lévi-Strauss, Fernand Braudel, Georges Gurvitch, Paul Arbousse-Bastide, Jacques Lambert, entre outros.
Na década de 30 e 40, esses professores formariam a primeira geração de sociólogos brasileiros, além de consolidar a atividade no Brasil. Além disso, foram definidos os rumos da Sociologia brasileira e atuou de forma importante na formação das gerações seguintes. Da primeira geração de intelectuais destacaram-se, entre outros, Florestan Fernandes, Maria Isaura Pereira de Queiroz, Aziz Simão, Antonio Candido, Gilda de Mello e Souza e Rui Galvão, em São Paulo, e Guerreiro Ramos e Hélio Jaguaribe, no Rio de Janeiro.

Primeira Geração – Florestan Fernandes

O pensamento da primeira geração e os estudos desenvolvidos posteriormente tem a marca e influência predominante de Florestan Fernandes, que se formou na USP e foi aluno de Roger Bastide e Fernando de Azevedo. Florestan, em sua atividade, foi um dos poucos intelectuais que conseguiu aliar o trabalho teórico-científico rigoroso com o engajamento político, tendo sempre se colocado como um sociólogo militante. Em torno dele, formou-se um núcleo de pensadores que viriam a formar o cerne do pensamento sociológico da USP, que, posteriormente, agregaria sociólogos da segunda geração, entre eles Fernando Henrique Cardoso.
O traço mais marcante desse estudo trata da condição de capitalismo dependente e a condição de país subdesenvolvido. Ao contrário de outros pensadores, Florestan, ao contrário de considerar essa condição um estágio para o desenvolvimento, caracterizou o subdesenvolvimento como uma formação histórica peculiar, com traços nítidos e talvez definitivos. Segundo Celso Frederico, para Florestan, “a peculidariedade da formação social brasileira deixou de herança ‘uma sociedade civil não civilizada’, uma burguesia débil, incapaz de propor um projeto nacional e ampliar a democracia”. Dessa maneira, ao invés de uma revolução burguesa clássica deu-se uma transformação diferente, com as classes dominantes acomodadas e concebidas em torno de uma democracia restrita, com todos os seus subprodutos (patrimonialismo, mandonismo, paternalismo, clientelismo e fisiologismo político).
Em relação a essa ordem social brasileira, Florestan adotou uma prática intelectual/política que lhe permitisse transformar a sociedade, sempre com o objetivo de abrir ou aprofundar rupturas com a ordem capitalista vigente. Ao contrário de outros pensadores nacionalistas da década de 50, Florestan não via sucesso no desenvolvimento econômico nacional dentro da ordem capitalista e sim preconizava o rompimento com ela.
A crise do capitalismo dependente brasileiro começou a ocorrer na década de 50 e seu fim culminaria no golpe militar de 64, que, que representou a opção de desenvolvimento com segurança para o capital. Essa opção também significou o fim virtual da produção sociológica brasileira. Como um dos eminentes pensadores da realidade brasileira, Florestan Fernandes foi um dos primeiros sociólogos a sofrer com a repressão do regime militar.

Segunda Geração – Fernando Henrique Cardoso

Após o golpe de 1964 e o advento do Regime Militar, inúmeros sociólogos foram perseguidos e aposentados pelos militares. Isso influenciou, atrapalhou e até extinguiu as discussões então em andamento.
Destaca-se, na época, Fernando Henrique Cardoso, que desenvolveu, junto com Enzo Faletto, a Teoria da Dependência, que não é a mesma abordada anteriormente por Florestan Fernandes, o capitalismo dependente. A tese abordava a relação de subordinação e dependência dos países subdesenvolvidos – as economias periféricas – aos países desenvolvidos – as economias centrais.
Dentre as várias considerações pertinentes dessa teoria, destaca-se a controversa argumentação de que a dependência econômica, por si só, não era um impedimento ao desenvolvimento econômico dos países periféricos. Além disso, apontava que os países, através de mudanças internas, podiam se integrar à ordem econômica vigente. Tudo isso, no entanto, não estava diretamente ligado ao desenvolvimento social e a distribuição de riqueza, ou seja, os países subdesenvolvidos ainda assim poderiam crescer, mas o crescimento econômico não implicava nas melhorias sociais esperadas tampouco na extinção de um modelo de país subdesenvolvido. Isso, mais do que nunca, é válido para a realidade brasileira de hoje, uma vez que nosso modelo de Estado e de Sociedade não necessita apenas de crescimento econômico e sim de mudanças mais profundas na ordem social e principalmente estatal.

A Sociologia após a abertura política

Na década de 80, com a abertura política, a sociologia brasileira refloresceu. Logo no início, ocorreu a regulamentação da profissão. Com a evolução acelerada da conjuntura brasileira, a década de 80 foi o ponto onde diversos caminhos começaram a ser abertos e trilhados por diferentes correntes político-ideológicas.
Além dos já existentes centros de estudos e universidades, surgiram dois novos centros, que congregariam boa parte dos novos sociólogos e pensadores. No Cebrap, fundado em 1969, as diferentes convicções ideológicas e as divergências políticas geraram, de início, dois outros centros de estudo: o Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec), e Instituto de Estudos Sociais, Econômicos e Políticos (Idesp). O primeiro, fundado por Francisco Weffort e José Álvaro Moisés, voltou-se mais para estudos críticos e políticos, de onde surgiu grande parte da corrente intelectual que fundaria o Partido dos Trabalhadores, Já o Idesp, liderado por Bolívar Lamounier, deixou as discussões ideológicas em segundo plano e se centrou em pesquisas sobre eventos políticos e eleitorais, de cunho pragmático-descritivo.
Na década de 90, o estudo da sociologia enveredou, também, para a análise microssociológicas, abordando objetos delimitados e de dimensão específica, inserido em um contexto conhecido e também delimitado. Por outro lado, outros sociólogos, como Octávio Ianni, abordaram a problemática social brasileira, que envolve, entre tantos fatores, o processo de globalização.
Em relação a ele, a sociologia deu atenção especial em perceber a relação disso com as condições sociais e distribuição de riqueza no Brasil, uma marca indelével na sociedade brasileira que atravessa décadas, estudos e regimes.
É inegável que a globalização representa um desafio à sociologia, pois torna a realidade muito mais complexa e difícil de ser analisada, além de abalar as referências clássicas dos sociólogos, como Marx e Weber. Nesse sentido, tudo do que é novo necessita ser repensado e rediscutido, tendo a sociologia a característica de disciplina da modernidade que permite a reflexão sobre as novas relações sociais.